FIGURAS PROEMINENTES EM PATOS DE MINAS

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BTEXTO: NEWTON FERREIRA DA SILVA MACIEL (2014)

Abordarei sobre personalidades de destaque, cada um em seu momento histórico que estiveram por motivos diversificados em nossa cidade. São quatro as ilustres personalidades a respeito das quais comento a seguir, todas que exerceram, entre outras atividades, a política. Todos se referem a fatos que eu presenciei ou, então, ouvi comentários demasiados.

MINISTRO FERNANDO DE SOUZA COSTA

Quando Ministro da Agricultura no governo de Getúlio Vargas, Fernando de Souza Costa esteve em Patos de Minas. Infelizmente, não sei precisar o motivo da sua presença em nossa cidade. Sequer posso afirmar o ano de sua vinda. Creio que no início da década de 1940. Todavia, posso garantir que um dos locais que aqui visitou foi a chácara de Amadeu Dias Maciel¹. Recordo-me que a nossa casa estava em reboliço com a presença de pessoa tão destacada. Dona Estela Mendonça Magalhães foi convidada para providenciar o lanche que seria servido ao ministro, liderado pela iguaria tipicamente mineira, o pão de queijo. Todos os detalhes para a realização das guloseimas foram preenchidos, adquirindo-se somente matéria prima de alta qualidade. A sua confecção foi a mais caprichada possível, seguindo o ritual que somente pessoas muito práticas eram conhecedoras. O ilustre visitante, depois de alimentar-se elogiou, sobremaneira, a delícia dos quitutes.

Ao fazer a pesquisa sobre o ministro notei um detalhe que achei interessante: a afirmativa de que Fernando Costa não andava de avião, pois tinha o pressentimento de que seria vítima de um acidente. Estranhamente, em 21 de janeiro de 1946 sofreu funesto acidente de automóvel na estrada de rodagem perto de Louveira (SP). Com a existência desta fobia que possuía pondero que ele, logicamente, teria surgido em Patos utilizando o transporte rodoviário, ou seja, teria vindo de automóvel. Naquela ocasião as chamadas estradas eram municipais, pois não existiam rodovias apropriadas, as quais, mal conservadas, eram cheias de buracos e muita poeira ou lama, dependendo da estação. Foi, em se tratando de uma pessoa que ocupava um cargo tão importante, uma verdadeira aventura. Fica, assim, registrada, embora sem os detalhes históricos, a presença pela primeira vez de um ministro de governo que visitou nossa cidade, embora não possa afirmar categoricamente tal fato.

JUAREZ DO NASCIMENTO FERNANDO TÁVORA

Constam nos dados bibliográficos deste militar nordestino, irrequieto e instável, elementos que comprovam a sua vida intensa em um período turbulento da história brasileira. Juarez Távora foi general do exército brasileiro e se tornou conhecido pelas suas atividades diversificadas. Justamente devido às suas projeções Brasil afora foi ele em 1954, convidado pela União Democrática Nacional (UDN), um dos partidos políticos de grande destaque nacional, para se candidatar à presidência da República. Justamente neste ano, acredito, tenha comparecido nestas nossas paragens o candidato. Sob a influência dos familiares de dona Jorgeta Maciel², participantes da direção da UDN local, foi ela instada a receber como hóspede, em seu palacete³, o relevante aspirante ao disputado cargo. A proprietária do imóvel aceitou o desafio e desempenhou com todo prazer a sua obrigação. Em sua residência destinou a Juarez Távora o seu espaçoso quarto de dormir. Não sei precisar a data de tal visita, pois aqui não estava presente, uma vez que residia em Belo Horizonte onde cursava a Faculdade de Direito. Todavia, soube que Juarez Távora não era simpático e nem mesmo agradeceu a acolhida. Quem sabe, talvez por estes e outros motivos tenha ele perdido a eleição em três de outubro de 1955 para seu concorrente, candidato pelo Partido Social Democrata (PSD) o sempre risonho e pleno de empatia, Juscelino Kubitschek, por uma expressiva maioria de quinhentos mil votos.

MILTON SOARES CAMPOS

Após a deposição do Presidente Vargas em 1945, Milton Campos foi eleito deputado à Assembleia Nacional Constituinte. Neste mesmo ano de 1945 participou da fundação da União Democrática Nacional (UDN). Dois anos depois concorreu à eleição para o governo mineiro, tendo sido eleito governador. Terminou seu mandato em janeiro de 1951, transferindo-o a seu sucessor Juscelino Kubitscheck. Depois de ter governado Minas Gerais, por duas vezes tornou-se candidato à vice-presidência da República, tendo sido derrotado em ambas. Em 1958 elegeu-se senador pelo seu Estado. Foi nomeado ministro da Justiça e Negócios Interiores, pelo Presidente Castelo Branco. Em razão de não concordar com o Ato Institucional n.º 2, editado pelo presidente, resolveu se demitir. Em 1966 foi reeleito Senador.

Milton Campos, que eu saiba, jamais esteve em Patos quando desempenhava a governança. Contudo, aqui ele esteve depois de ter terminado o seu mandato. É justamente sobre a estada de tão respeitável mineiro que vou comentar. Certo dia tocou a campainha em minha casa na Avenida Getúlio Vargas4. Eu fui atender, abri a porta e então, ao mirar o forasteiro com atenção levei o maior susto. Era o ex-governador. A minha atrapalhada de jovem tímido foi imediata. Ao cumprimentá-lo, gaguejando, disse boa noite, em uma tarde escaldante pelo sol a pino. Logo em seguida o digno político me perguntou sobre o professor Zama Maciel, que morava na parte inferior da casa. Só aí consegui recuperar o fôlego e expliquei-lhe o local da residência da pessoa que procurava. Então, dentro das minhas possibilidades emocionais, pedi a ele que me acompanhasse e o conduzi, juntamente com o seu cunhado que o acompanhava até os aposentos do político patense. Foi um verdadeiro imbróglio. Ainda bem que não havia testemunhas de tanto descontrole de minha parte…

JÂNIO QUADROS

O advogado Jânio da Silva Quadros tomou posse como Presidente da República em janeiro de 1961. Seu mandato foi polêmico. Preocupou-se com o que pareceu para muitos, assuntos de menor importância como, por exemplo, a extinção das rinhas de galos, proibição do uso de lança-perfumes por ocasião do carnaval, o que já era tradição, etc. Sete meses após sua posse, Jânio renunciou ao cargo para o qual tinha sido eleito. O motivo alegado por ele, um tanto nebuloso, teria sido a “pressão de forças ocultas” até hoje não esclarecidas. Segundo a propagação da imprensa Jânio renunciou devido à pressão política da oposição e de diversas áreas da sociedade brasileira. Aliás, à boca miúda, tal fato extremo teria sido efetuado em razão de grandes doses de bebidas alcoólicas.

Candidato à presidência da república por uma coligação de partidos, entre eles a UDN, Jânio visitou numerosas cidades do Brasil em sua campanha. Entre elas, Patos de Minas. Chegou à nossa cidade na parte da tarde de um dia que não sei identificar, recebido com grande entusiasmo pela direção dos partidos que lhe davam apoio. Logo que a aeronave aterrissou foi ele conduzido do aeroporto diretamente para a residência do prefeito Binga, situada na Rua Olegário Maciel, bem no centro da cidade. Diziam as más línguas que, após sorver numerosos goles de uísque doze anos, sempre conversando com os políticos que o rodeavam, decidiu ele participar do comício anteriormente divulgado. A multidão, curiosa, já se acotovelava para ver e ouvir o candidato havia mais de uma hora. Ainda conforme as mesmas fontes, desequilibrado pelo efeito da bebida alcoólica, dirigiu-se o pretendente para o alpendre da referida morada. Com a mão esquerda apoiava-se na mureta para não cair. Com a direita fazia os gestos típicos dos oradores empolgados. Poucas pessoas notaram as falhas físicas, tão impressionadas estavam com o orador demagogo. Aplausos, aplausos e mais aplausos, para um mestre da oratória.

* 1: perto da Coopatos, na Avenida Marabá

* 2: Esposa de Amadeu Dias Maciel.

* 3: Residência do casal na esquina da Avenida Getúlio Vargas com Rua Olegário Maciel.

* 4: Palacete do casal Amadeu Dias Maciel e Jorgeta Maciel. Newton Maciel foi morar com o casal no palacete quando tinha 8 anos de idade. Amadeu faleceu em outubro de 1945 e Jorgeta em março de 1964. Newton casou em 1957 e morou no imóvel até 1974, na parte de cima, enquanto Zama Maciel morou na parte de baixo. O palacete foi vendido em 1993. Já foi sede, entre outros, do consultório do Dr. Sandoval Silveira, Instituto Brasileiro do Café e Coletoria.

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