UM PASSEIO PELO CENTRO

Postado por e arquivado em CANTINHO LITERÁRIO DO EITEL.

De vez em quando, para não dizer que o melhor seria constantemente, é bom a gente passear a pé pelo Centro da nossa cidade ainda com aquele jeito de interior. Aliás, não só pelo centro, mas também pelos bairros e até pela zona rural e, melhor ainda, estendendo pelos distritos do município. Neste caso, seria melhor a gente ser movido por alguma geringonça motorizada, para não cansar muito o corpo já cansado pela vida diária que o tempo nos impõe. É só esta querência se apoderar de nosso desejo e logo vem o todo poderoso tempo, o senhor da razão, podar o nosso querer. Pois é, o tal do tempo nos maltrata a cada dia que passa.

Por enquanto, vou ficar só no Centro. Tratei logo de convencer o tempo e eis que ele me liberou para umas voltinhas numa bela manhã de sábado destes qualquer. Poucas, sim, mas suficientes para saborear um pouquinho do cotidiano de muitas pessoas que a gente só conhece de vista, de outras que a gente nunca viu, de algumas que a gente não queria ter visto e de muitas que nos alegram. Muitas delas misturadas no vai-e-vem frenético, numa correria desenfreada que mal dá tempo para um alô. É o tal do tempo que não as liberam numa cidade já considerada de pequena para médio porte. Mas eis que de repente encontramos um, dois ou mais e aí paramos um pouquinho para uma troca de idéias. E neste quesito é muito importante a gente ter um monte de idéias repetidas para trocar com as muitas idéias repetidas deles.

– E aí, Tião, tudo bem?

– Ficou sabendo do Nicolau?

O papo mal começa e uma freada brusca seguida de um barulho de lataria se chocando assustam a nós reunidos numa esquina. Olhamos espantados para a reação do cara do carro vermelho que evadiu de seu veículo bufando mais que cachorro com raiva. O do carro branco, perplexo, ainda estava dentro de seu veículo quando o outro lhe chega à porta e dana a soltar palavrões. Nisso vinha uma moto a mil por hora, e esta estava até devagar, ciscando para tudo quanto era lado, normalíssimo, quando se deparou com a porta do carro vermelho aberta. Mais barulho de lataria se chocando ecoou pelos ares. Tava lá o cara no chão e isso foi mais do que suficiente para os dois brigões se olharem e depois olharem para a massa corporal estendida no asfalto com cheiro de eucalipto. Sangue? Sim, era sangue se juntando ao preto do asfalto para formar as cores do rubro-negro carioca. E as pessoas? Já eram umas trezentas e lá vai fumaça ao redor do circo. Ninguém mais brigava e novo barulho surgiu: a sirene da ambulância do SAMU.

– Gente, como são loucos esses motoristas de hoje, hêim?

– Não se esqueçam dos motoqueiros, bicicleteiros e dos carroceiros.

– E ainda tem os catadores de papelão e outras tralhas com aqueles carroções de mão, né?

A multidão se desfez e quando olhamos tava lá tudo na normalidade de novo. Pareceu até que nada havia acontecido. Segui meu rumo em busca de outras paragens no simpático centro de minha cidade do interior. Rapidamente encontrei outro grupo de conhecidos. Mal começamos o bate-papo e ouviu-se uma voz esganiçada de uma criança de uns quatro anos, por aí. Esta, acompanhada da mãe zelosa, uma manceba de seus vinte e não muitos anos, carregava uma latinha de refrigerante na mão. O choro da criança se justificava. Como ela havia derramado o líquido na preciosa roupinha, e isso significava trabalho para a mamãe em casa, ela, a mamãe, tomara a latinha das mãos da criança. Está explicada a bocarra com sua conseqüente algazarra. As duas, mãe e filha, cruzaram por nós. A bocarra escancarada e o zunido estridente atrapalhando urubus que plainavam metros e metros acima de nós. Nisso, a mamãe, não agüentando mais o escarcéu, devolveu a latinha à filha. Parecia até que aquela latinha era a última coisa na vida da criança. E deu-se de novo: roupinha molhada. A mamãe, mais brava que deputado quando não recebe por ter faltado ao trabalho, apropria-se indebitamente da latinha das mãos da filha e… e… livra-se dela em plena calçada.

– Viram só, uma baita cesta de lixo pertinho e a mulher joga a latinha na calçada!

– Já tinha idade para ter educação, né?

– Eis o problema, gente, educação!

Virando a esquina, sumiram-se mãe e filha. Escutamos ainda a voz de uma forte repreensão, mas o choro conseqüente já ia longe. Despedi-me do grupo e segui em frente, já percebendo que as horas me aproximavam do almoço. Horários, tempo para isso, tempo para aquilo e outros sei lá o que. Dei meia volta e rumei em direção ao veículo que, em conjunto comigo, me levaria até a minha residência. Foi quando me deparei com o Aparício.

– Quanto tempo não te vejo, amigo!

– É, lá se vão uns dez anos.

Um abraço forte selou o reencontro. Conversa vai daqui, conversa vai dali, o papo já estava se estendendo além da conta para nós dois, apesar da agradabilidade, quando resolvemos nos despedir. Meu amigo se foi e estava atravessando uma rua com uma faixa de pedestres mais visível que arrogância de determinadas diretoras de escolas estaduais, que se imaginam reitoras de universidades, quando ouvi o baita palavrão. Era o meu amigo que acabara de escapulir de um atropelamento, soltando a voz.

– Pô, cara, nem na faixa de pedestres os carros respeitam a gente.

– É a falta de cultura, meu amigo.

Lá se foi o Aparício, mais nervoso que açougueiro quando ouve do cliente para cortar o 50% da peça que é sebo só. Com essa, resolvi me adentrar ao veículo e rumei para o aconchego do meu lar. Em lá chegando liguei a TV para o noticiário local. E o que ouço? A tradicional festa da cidade que desde que começou lá pelo final dos anos 50 do século passado sempre coincidiu com a semana de seu aniversário mudou para outro mês. Pensei logo com meus botões depois dessa e dos acontecimentos no centro: é, minha querida cidade do interior já não é a mesma!

* Texto e foto (31/03/2014): Eitel Teixeira Dannemann.

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