É MENTIRA DO GUARDA

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

O Joaquim das Telhas sempre foi um homem de pensamento rápido, desses que mal entrados em alguma enrascada já conseguem imaginar, na hora, a forma certa de sair dela sem sofrer maiores prejuízos. Muitos casos protagonizados por ele se tornaram conhecidos em Periquitinho Verde e adjacências, e o mais famoso de todos certamente é o da viagem que o dito-cujo fez à capital federal para tratar de negócios particulares que não têm nada a ver com este relato.

O problema aconteceu quando ele ia daqui para lá, e se tornou assunto popular porque o seu amigo João Rosado, que viajava de lá para cá, passou pelo local justamente na hora da confusão, parou para ver que rolo era aquele, reconheceu a caminhoneta do companheiro, desceu para lhe prestar ajuda, e assim se tornou testemunha ocular da história, divulgando-a mais tarde pelos quatro cantos da cidade. Daí que como todos, ou quase todos os periquitinhoverdenses, já sabem do ocorrido, não existe mal algum em que essa passagem da vida do Joaquim das Telhas se torne conhecida por um pouquinho mais de gente em outras terras.

Quem passa pelo rio Pipocatu, rumo à cidade do mesmo nome, encontra pela frente um trecho reto de estrada que se prolonga por alguns quilômetros, um autêntico e irresistível convite ao “ninguém é mais rápido que eu”. E como a tecnologia dos carros modernos é a do “pisa fundo que eu mando brasa”, o Joaquim não fez por menos: pregou o ponteiro do velocímetro do seu “possante” na casa dos cento e tantos e esqueceu do resto.

E assim lá ia ele, feliz e satisfeito da vida, quando uma luz vermelha piscou mais à frente, bem no meio da pista. Na mesma hora o Joaquim bambeou o pé do acelerador, deu uma cutucada de leve no freio, o carro foi perdendo velocidade, perdendo velocidade, até parar no acostamento, atrás de uma viatura da polícia rodoviária. Nem bem ele tinha se imobilizado e um patrulheiro baixo e barrigudo, de cara feia, nariz vermelho e bigode tipo vassoura, veio caminhando sem pressa até chegar junto à porta do motorista, dando início, então, ao seguinte diálogo:

– Sua carteira de habilitação!

– Não tenho.

– Não tem?

– Não, eu não sou habilitado.

– Então me dê o documento do veículo.

– Também não tenho.

– Também não tem?

– Não, não tenho. Eu roubei esse carro e por isso não sei de documento nenhum. Pode ser até que ele esteja no porta-luva, porque quando fui guardar o meu revólver, vi um monte de papéis lá dentro…

– Você disse revólver?

– Disse. É o revólver com que matei a mulher que parou o carro para me dar carona, alguns quilômetros aí pra trás.

Nessa hora o patrulheiro rodoviário assustou-se, hesitou por uma fração de segundo, apenas, mas em seguida levou a mão à cintura, sacou sua arma, apontou-a para o Joaquim e intimou com a voz autoritária que o “trezoitão” costuma dar a quem o empunha:

 – Fique quieto! Ponha as mãos no volante, onde eu possa vê-las! Devagar… Assim… Agora me diga que mulher é essa que você matou.

– Já lhe disse. A que parou para me dar carona.

– E onde é que ela está?

– Ai atrás. Eu escondi o seu corpo no porta-mala.

Nessa altura o policial acenou nervosamente chamando os seus companheiros que estavam mais adiante, e eles vieram apressados, inclusive o capitão que os comandava. Este, após ter sido inteirado dos fatos, se aproximou do veículo e perguntou ao Joaquim:

– Então o senhor está dirigindo na rodovia sem carteira de habilitação!

– Quem lhe disse isso? É claro que tenho! Ela está aqui.

E tirando-a do bolso da camisa, entregou-a ao oficial. O policial ficou surpreso, examinou o documento com atenção e perguntou em seguida:

– Este carro é furtado?

– Não senhor, ele é meu. O documento de propriedade está aqui.

E o colocou nas mãos do policial. Confuso, o capitão não teve outra saída senão indagar:

– O senhor tem uma arma de fogo no porta-luva?

– Arma de fogo? Eu? O que é isso, capitão? Tá ficando doido?

E mostrou o compartimento vazio.  Já sem saber o que fazer, o oficial intimou meio sem jeito:

– Me dê a chave do porta-malas. Pelo que me disseram, tem um corpo de mulher lá dentro.

Joaquim deu-lhe a chave, o patrulheiro foi à traseira do veículo, abriu a tampa do bagageiro, mas o encontrou vazio. Desconcertado, ele se aproximou novamente do Joaquim e disse tropeçando nas palavras:

– Não estou entendendo nada dessa história. O que o patrulheiro me disse foi que o senhor não tinha carteira de habilitação, que estava armado, que tinha roubado esse carro, matado a sua dona e escondido o corpo dela no porta-mala. Mas nada disso confere. Como é que pode?

E o Joaquim das Telhas:

– Para o senhor ver como são as coisas, não é mesmo? Tem quase uma hora que estou parado aqui, sem ter a menor idéia do que está acontecendo. Depois desse tempo todo em que fiquei bancando o bocó, vem o senhor me dizer que o seu patrulheiro contou uma mentirada danada. Pois olhe, capitão, se ele é desses que mentem até quando não dizem nada, não custa nada o homem abrir a boca e afirmar que me parou porque eu vinha rodando a cento e sessenta por hora.  Logo eu, que raramente tenho coragem de chegar perto dos cem. Diante disso eu pergunto: nessa história mal contada, onde é que fica o direito do cidadão?

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