CONVERSA DE ROCEIRO

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

Grota Funda, um dos cinco distritos do município de Periquitinho Verde, fica a oeste da sede municipal e distante dela cerca de cinqüenta quilômetros. A localidade é servida por uma empresa de ônibus com horário único diário tanto para ir como para voltar da cidade, e como quem viaja nessa condução é gente que se conhece bem, a conversa rola solta e franca durante a hora e meia que o motorista gasta normalmente para cobrir esse percurso relativamente pequeno, isso porque, como vocês sabem, os passageiros das linhas municipais iguais a essa embarcam e desembarcam na porteira da fazenda onde moram, e assim vão atrasando a viagem.

Via de regra, o que se conversa dentro dos veículos desse tipo são assuntos ligados à vida local, porque são eles os que interessam diretamente a quem está viajando da roça para a cidade, ou vice-versa. E por esse motivo os comentários, informações e notícias sobre terra, família, gado, lavoura, tempo e coisas semelhantes, predominam durante o tempo gasto para sair e chegar. Mas vez por outra alguma coisa mais interessante pode ser ouvida por quem prestar um pouquinho mais de atenção no falatório feito em tom mais baixo, e uma delas chegou aos ouvidos do Zé Corneteiro, que tratou de espalhá-la pela cidade.

Diz-se que dois homens, não importa quem eram, conversavam animadamente no ônibus. Assunto vai, assunto vem, risada daqui, risada dali, a viagem ia seguindo normalmente até que em dado momento um deles, lembrando-se da mulher pelada que havia aparecido na novela da tevê Vem Ver o Bobo, bateu com os dedos na testa e, interessado, perguntou pro seu companheiro de bate-papo:

– Cumpádi, u quê qui ocê acha desse negóço de nudez?

O outro não pensou muito e respondeu:

– Achu bão, sô!

Ouvindo aquilo o que fez a pergunta ficou pensativo por alguns instantes, mas logo em seguida resolveu indagar de novo:

– Não tou ti entendendo, cumpadi. Ocê acha bão pur caus di quê?

E o compadre :

– Uai, sô! É mió nudez qui nu nosso, né memo?

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