DEIXAREI SAUDADE – 14

Postado por e arquivado em 2016, DÉCADA DE 2010, FOTOS.

O que sentir ou pensar quando se percebe o fim aproximar? Ora, se não, por que meus donos sumiram, me abandonaram? Por que ninguém mais circula por minhas entranhas ou em meu entorno? Nem aquele cachorrinho que vivia urinando nos meus muros aparece mais. Lembro-me bem dele quando terminava o serviço e me olhava com uma carinha safada de satisfação. Agora tudo acabou, estou sozinha, percebendo este prédio atrás de mim subindo… subindo… e com isso eu penso no meu fim.

Desde nova fui simples, humilde, mas acima de tudo digna. Quando havia poucas casas por aqui, já fui a mais bela delas, e isso sempre me orgulhou. Mas o tempo é inexorável, e rápido, muito rápido. Lá está, bem à minha frente, outra amiga que se foi para dar lugar a mais um prédio. Sinto, cruelmente, que meu fim se aproxima. Sabe-se lá o dia, mas quando eu for ninguém mais se lembrará de mim, a não ser as consciências que me habitaram. Vou em paz, e mesmo não sendo reverenciada como os casarões da elite, jamais deixarei de fazer parte da História de Patos de Minas.

Estou nas minhas últimas forças, na angústia terrível da dúvida sobre quando me transformarei num monte de entulhos, ali no n.º 215 da Rua Formiga, no Bairro Rosário. É neste endereço onde eu humildemente espero o meu fim. Este verso da música “Peso dos Anos”, de Walter Rosa e Candeia, fala por mim: Sinto que o peso dos anos me invade, vejo o tempo entregar à distância minha mocidade. Oportunamente partirei abandonando as coisas naturais, mas deixarei saudade. Com certeza, e assim vou para a eternidade!

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* Texto e Foto (29/08/2016): Eitel Teixeira Dannemann.

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