DEIXAREI SAUDADE – 15

Postado por e arquivado em 2016, DÉCADA DE 2010, FOTOS.

Por que me olhas com esta cara de espanto? Por um acaso nunca viu um casarão rural em ruínas? Saiba você que já fui bela e frequentada por gente muito boa. Não me lembro mais quem me construiu. O que tenho guardado com carinho na memória é o casal Manoel Pereira Caixeta, o seu Manoelzinho, e Henriqueta Augusta Caixeta de Melo, a dona Quêta. Isso tudo aqui em volta era chamado de Fazenda Limoeiro. Até o Amadeu Dias Maciel tinha terras por aqui. Se não me engano era a década de 1930 quando Manoelzinho e Quêta vieram para dentro de mim. E dentro de mim nasceram alguns dos filhos do casal. O que eu mais gostava era o Juca, o José Caixeta de Melo. Que bons tempos!

Agora, veja só o meu estado deplorável. Sem eu perceber, o tempo foi passando, os meninos crescendo e se mudando daqui, seu Manoelzinho e dona Quêta se foram para sempre, a cidade com seu cimento e concreto foi derrubando a mata e fechando o cerco sobre mim, até que um dia me vi sozinha, abandonada. Hoje, já não existe mais a Fazenda Limoeiro. Hoje, isso aqui é um bairro, que eles chamam de Alto Caiçaras. E hoje, aos frangalhos, fico observando daqui de baixo dois filhos do seu Juca com dona Madalena morando sozinhos numa casinha simples na esquina da Rua Sebastião Vieira Disrael com Olímpio Pereira de Melo.

Oh! vida, nada mais me resta a não ser esperar o meu fim definitivo. Mas, desde o primeiro tijolo assentado, passei a pertencer à História de Patos de Minas. Prestes a encerrar o meu ciclo de vida, quando eu for ninguém mais se lembrará de mim, a não ser as consciências que me habitaram. Este tronco queimado e sombrio é o estigma do meu fim. Vou em paz, e mesmo não sendo reverenciada como os casarões da elite, jamais deixarei de fazer parte da existência da cidade. Este verso da música “Peso dos Anos”, de Walter Rosa e Candeia, fala por mim: Sinto que o peso dos anos me invade, vejo o tempo entregar à distância minha mocidade. Oportunamente partirei abandonando as coisas naturais, mas deixarei saudade. Com certeza, e assim vou para a eternidade!

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* Texto e Foto (25/09/2016): Eitel Teixeira Dannemann.

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