COMIDA DE JACARÉS

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

Qualquer periquitinhoverdense que seja dono de alguma coisa ligada à atividade agropecuária, certamente já ouviu falar da fazenda do Juca Luís, em Grota Funda, um dos cinco distritos de Periquitinho Verde, porque sendo ela uma propriedade rural muito bem cuidada, todos os que de alguma forma se incluem nesse ramo fazem questão de afirmar aos parentes, aos amigos e conhecidos, que já a visitaram, ou então que estão pretendendo fazer isso um dia desses, se Deus quiser.

Na verdade, eles nem precisam esperar que o proprietário os convide, é bom que se diga. Sendo um criador competente e caprichoso, “seu” Juca cuida do rebanho bovino que possui com a atenção que os animais de cria, recria e engorda merecem, razão pela qual as muitas centenas de cabeças de gado nelore, empastadas em suas terras, estão sempre atraindo interessados de diversos lugares do país, dispostos a pagar por algumas rezes preço até mesmo um pouquinho mais alto que o vigorante no mercado.

“É porque vale à pena”, garantem os compradores, e como eu só entendo de gado bovino quando o bife do contrafilé está em meu prato, pronto para ser engolido, assino sem pestanejar ao pé dessa declaração.

A pastaria da fazenda Tudo em Riba – esse é o nome da propriedade de que estamos falando – está dividida em piquetes retangulares, coisa que o dono aprendeu a fazer com os técnicos em bovinocultura que há uns quatro anos andaram visitando alguns criadores em Grota Funda.

Em uma dessas pequenas áreas, que fica bem ao pé da serra do Cachorro Doido, existe uma lagoa de águas tão límpidas, mas tão límpidas, que as pessoas chegam lá, olham para aquele espelho líquido convidativo, e na mesma hora sentem uma vontade danada de arrancar a roupa, ficar pelado, pular lá dentro e tomar um banho gostoso, do jeitinho que faziam quando eram crianças, e por isso mesmo ninguém se importava com o fato delas ficarem com os documentos de fora.

Bem perto dessa lagoa existe um bosque com cerca de cento e cinqüenta goiabeiras, se é que eu não errei na conta, que vicejam exuberantes como se estivessem em um concurso de beleza vegetal, mas produzindo todo santo ano, sem falhar, uma quantidade apreciável de belos frutos com polpa de cor amarela ou vermelha – que é para agradar tanto a gregos como a troianos.

E foi numa dessas épocas produtivas que o fazendeiro Juca se dirigiu ao goiabal levando nas mãos duas vasilhas grandes nas mãos, a fim de nelas recolher as goiabas que sua esposa precisava para fazer uma farturenta tachada de doce. Mas ao se aproximar do lugar das goiabeiras ele ouviu os risos e gritos de algumas moças que nadavam nuas e despreocupadas nas águas da lagoa.

Então, curioso, ele chegou até a beira d’água sem segundas intenções, é preciso que se diga, mas ao vê-lo fazer isso as coitadinhas ficaram assustadas, se agruparam rapidamente no meio do tanque natural onde nadavam naquela base do tudo à mostra, uma bem juntinho da outra, ficaram assim durante algum tempo, numa falação da qual ninguém entendia patavina  porque entremeada daqueles gritinhos agudos que só as mulheres mais jovens são capazes de emitir, até que uma delas criou coragem, encarou o recém-chegado e avisou em tom absolutamente categórico:

– Vá embora! Vá embora, seu abelhudo!  Não adianta ficar espichando esse olho pra cima da gente porque nós só vamos sair daqui quando você estiver bem longe da lagoa. Entendeu?

E o Juca Luis, que não é nada bobo, respondeu na hora:

– Qualé, moças!… Vocês tão pensando o quê?… Não estou querendo ver ninguém pelada, não!…  Eu só vim aqui pra dar comida pros jacarés…

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