14 DE JULHO: O 1.º TEATRO E SUA EFÊMERA EXISTÊNCIA

Postado por e arquivado em ARTES, TEATRO.

Até o início da década de 1910, Patos ainda sem o “de Minas” não tinha teatro. Esporadicamente, duas a três vezes por ano, aparecia alguma companhia que apresentava em poucos dias peças repetitivas e de baixa qualidade. Essa situação não agradava a vários cidadãos apreciadores da arte. Para tentar sanar o problema, organizaram um movimento no sentido de levar à cena algumas peças como dramas, comédias e representações ligeiras. Participavam dos debates Carlos da Costa Soares, Otávio Borges, Mário Ribeiro, Osório Corrêa da Costa, Huáscar Corrêa da Costa, Benjamin Corrêa da Costa, Sebastião Mendonça, Manoel Ferreira Alexandre (o popular Matraca), Arthur Thomaz de Magalhães, João dos Reis Rodrigues, Euphrasio José Rodrigues, Virgílio Cançado, Deiró Eunápio Borges, Amélia Corrêa da Costa, Aurélio Caixeta de Melo e Felipe Rodrigues Corrêa. Vontade de produzir peças locais não faltava, mas havia o entrave primordial: na cidade não havia teatro.

Foi então que o Cel. Arthur Thomaz de Magalhães decidiu construir com recursos próprios a casa de espetáculos: o Teatro 14 de Julho. Situava-se na hoje Avenida Getúlio Vargas entre as ruas José de Santana e Olegário Maciel, na calçada do Palácio dos Cristais. Tratava-se de um amplo chalé de aproximadamente 20 metros de frente por 15 metros de fundo, feito de adobe e revestido com reboco de estrume de gado e areia, na proporção de três por um. O nome com que foi batizado evidencia o alto prestígio e a influência da França sobre os costumes e a cultura, não só no Brasil como em todos os outros países: 14 de Julho é a data da queda de Bastilha. O dia da inauguração foi acontecimento para a vida monótona da nossa cidade que na época, contava menos de 1500 habitantes. O Dr. Euphrasio José Rodrigues apresentou-se como figura principal, trajando-se elegantemente e sendo o orador oficial da solenidade. Na cerimônia, 21 moças dispostas em forma de ângulo representaram os 21 Estados da Federação. Vestiam-se todas de branco com uma faixa com as cores nacionais e um elegante capacete. Dona Marlene Melo – que tinha a fama de mulher bonita – representou a República.

As primeiras peças apresentadas foram o drama Amor e Ciúme, de autoria do teatrólogo José Segundo Wanderley; a comédia Parteira Anatômica e o dramalhão O Poder do Ouro. Todas alcançaram grande sucesso. Amor e Ciúme foi interpretado por Huáscar Corrêa da Costa no papel principal, personificando Ângela, que tinha uma filha cega – Ester. O então garoto Benjamin Corrêa da Costa desempenhou o papel de Ester. Carlos Soares trabalhou como médico, e obteve pleno êxito na operação a que submeteu a filha de Ângela. Em Parteira Anatômica houve passagens realmente cômicas. Manoel Matraca, não tendo decorado todo o texto, improvisou algumas falas, o que motivou gargalhadas na plateia. Sua esposa assentada à primeira fila, chegou a aparteá-lo: – Ah, Manoel, deixa disso. Deve ter sido realmente cômico – Matraca, gordão, moreno e meio atrasado, vestido de mulher e fazendo papel de parteira. Até então o papel feminino era desempenhado pelos homens.

No dramalhão O Poder do Ouro as cenas se desenrolam em Paris. Aurélio Caixeta de Melo, figurante principal, desempenha o papel de um irresistível e rico conquistador. Virgílio Cançado e Maria Luiza de Melo fizeram o papel de pais de Deiró Eunápio Borges e Amélia Corrêa da Costa. A cena inicial mostra Virgílio e Deiró aplainando madeira. Mas o jovem Deiró era cheio de sonhos e ambições, e por isso vai para Loanda¹, em busca da fortuna. Aurélio Caixeta, consegue conquistar a filha do casal, a graciosa Amélia. Mas o ouro é mais forte que o recato da mulher, e o namoro acaba em gravidez. O problema se resolveria como ainda hoje, ou seja, o casamento. No entanto, o então jovem Aurélio Caixeta não aceita a solução imposta. Nesse interim Deiró Borges regressa de Loanda, com grande fortuna e Aurélio continuava a não aceitar a ideia do matrimônio. A peça termina com Deiró Borges desferindo dois tiros no conquistador de sua irmã. Há na peça, além do valor histórico, passagens bastante engraçadas. Um personagem, por exemplo, dizia, por desconhecer a mais rudimentar noção da língua francesa: – Vamos passear no bois. Queria dizer Bois de Bolongne. Outra dizia porque não sabia pronunciar a palavra penhoar: – Dá-me meu pignoir. Como complemento de O Poder do Ouro foi encenada a comédia O Judas no Sábado de Aleluia, de autoria do grande comediógrafo brasileiro Martins Pena.

Na mesma época foi encenada outra comédia. Figuravam como artistas Osório Corrêa e Mário Ribeiro. O primeiro desempenhou o papel de mulher mandona. Trajava blusa branca e saia marrom, além de elegante chapéu para tapar a careca. Imaginem o velho e saudoso Osório Corrêa, vestido de mulher, a dizer com voz grossa e nasal: – Vem cá, meus filhos.

Em 1911 as coisas começaram a desandar quando surgiu um desentendimento entre Virgílio Cançado e Deiró Eunápio Borges ao ensaiarem a peça A Culpa dos Pais. O primeiro se batia pela realização imediata do espetáculo, enquanto que Deiró Borges argumentava não estar a mesma devidamente ensaiada. Esse desentendimento fez malograr os esforços de todo o grupo de artistas. A edição de 02 de julho do jornal O Commercio salientou que o Teatro 14 de Julho havia se transformado numa casa de jogos: Comtudo, bem depressa passaram-se os bons tempos, esfriou-se o animo dos rapazes, e o theatro, em vez da musica alegre, ruidosa, tocando á sua porta, entre o vai-vem dos espectadores, passou a revestir-se de um aspecto triste de caza desdeixada. A’ altas horas da noite, não mais se ouve alli, como outr’ora, os aplausos da platéa satisfeita; mas, o continuo tilintar das fixas que se encontram em todas as direcções, e o gyrar incessante da roleta, por entre o vozear dos circunstantes²

Em dezembro de 1911, Oscar Borges, Raul Melgaço, Carlos A. Soares, Genesio Borges, Telesphoro Ribeiro, João Cammilo, Otávio Borges e João Reis fizeram uma tentativa de recuperar o desfigurado Teatro 14 de julho com a encenação da peça Ghigi. O evento foi anunciado no jornal O Commercio, com destaque para as más condições da casa de espetáculo: Pede-se o obsequio de levarem cadeiras, visto o grupo de amadores não dispôr de tempo preciso para mobiliar o Theatro, em consequencia de suas occupações³.

Mesmo com as condições desfavoráveis do teatro, o espetáculo foi aprovado pela plateia, como demonstra uma nota publicada na edição seguinte do jornal (07/01/1912): Conforme anunciamos, realizou-se, nos dias 30 e 31, o espectaculo no Theatro “14 de Julho”, em que os amadores desempenharam muito bem seus papeis, sendo muito applaudidos pela platéa que, enthusiasmada, pediu repetição para o dia seguinte, o que accederam de bom grado. Parabens aos amadores e animo para nova empreza.

Apesar do sucesso da apresentação da peça Ghigi, o grupo de amadores não conseguiu levar adiante o objetivo de novos empreendimentos. Assim sendo, Arthur Thomaz de Magalhães fechou a casa. Ao mesmo tempo, o cinema se despontava na cidade com alguns exibidores ambulantes. Isso, quem sabe, tenha desmotivado o patense em relação ao teatro. O Cel. Arthur não perdeu o ânimo e partiu para a nova arte, fundando o primeiro cinema em 1913, o Cine Magalhães4. E o teatro só reapareceu em Patos depois de 1915.

* 1: Município brasileiro do Estado do Paraná.

* 2: Leia o artigo na íntegra em “Sobre o Teatro em 1911”.

* 3: Veja o anúncio em “Theatro – 1911”.

* 4: Leia “Cine Magalhães”.

* Texto: Eitel Teixeira Dannemann.

* Fontes: Altamir Pereira da Fonseca e arquivo do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão de História (LEPEH) do Unipam.

* Foto: Artesanosdelcarnaval.com, meramente ilustrativa.

Compartilhe