ESSA CASA É MINHA, SÔ!

Postado por e arquivado em CANTINHO LITERÁRIO DO EITEL.

Dia desses estava saboreando uma traíra sem espinho com alguns amigos num boteco ali no Bairro Caramuru quando percebemos dois sujeitos numa mesa posta na calçada. Um era mais velho que o outro, e estavam bêbados demais da conta. Como falavam alto, escutamos o incrível diálogo, mas custando a entender o linguajar enrolado.

– Onde é que você mora? – perguntou o mais novo.

– Eu moro na segunda casa ali, virando aquela esquina – respondeu o mais velho, indicando o lugar.

– Na segunda casa virando a esquina?

– É lá mesmo, sô.

– Na segunda casa virando a esquina?

– Uai, sô, cê parece que bebeu, acabei de dizer que é na segunda casa virando a esquina.

– Mas péra aí, na segunda casa virando a esquina quem mora lá sou eu.

– Como assim você mora lá? Eu, hêim, eu moro lá há muitos anos.

– Ora sô, quem mora lá há muitos anos sou eu.

Essa lengalenga se prolongou por muitos minutos, até que resolveram decidir a questão: levantaram e, com muita dificuldade, foram ver a casa. Como não queríamos, de modo algum, perder o desfecho daquela cena inusitada, ficamos na esquina apreciando.

– Aqui ó, é essa a casa em que eu moro – apontou o mais velho.

– Que trem mais doido, sô, essa é a minha casa. Eu é que moro nela – respondeu o mais moço.

– Mas não pode, sô, eu é que moro nela.

– De jeito nenhum. Se eu tô falando que moro nela é porque sou eu que moro nela.

– Por um acaso você está me chamando de mentiroso?

– Vá, que seja, pois eu é que moro nela.

– Não, ela é minha.

– Não é sua não, é minha.

O bate-boca só não prosseguiu por mais tempo porque uma vizinha passou pelos dois e disse em alto e bom som:

– Que coisa feia, hêim, pai e filho outra vez bêbados discutindo na porta de casa. Vocês deviam ter vergonha!

A vizinha tomou o rumo dela, pai e filho entraram na casa discutindo e nós voltamos pra mesa do boteco. Lá ficamos sabendo que os dois eram pedreiros e que, após uma noite de sono pesado, os dois sempre estavam firmes e fortes no batente e no final do expediente tudo se repetia.

* Texto: Eitel Teixeira Dannemann (Traquitanas Patenses).

* Foto: Piadanoblogger.blogspot.com.br.

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