ETNIAS NEGRAS NOS PRIMÓRDIOS

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Informações contidas na Carta de Sesmaria de Afonso Manoel Pereira¹ nos dão conta de que no sertão das margens do Rio Paranaíba se acham terras de campos e matas devolutos, de parte da Capitania, servindo somente de asilo aos negros fugidos dos moradores do Paracatu e Goiás, de onde sai contínuos assaltos². Antes mesmo de receber a Carta de Sesmaria, Afonso Manoel e seus companheiros iniciaram o extermínio dos quilombos. L. Barreto, em História de Arcos, também faz referência à destruição de diversos quilombos na região, entre eles o do “Rio Paranaíba”. “Em 1760, numa campanha sanguinária anterior à de Pamplona, o Bartolomeu Bueno do Prado e Salvador Jorge, seu primo, comandaram uma escolta de 400 homens, por ordem do governador Gomes Freire de Andrade, que entrou no sertão de Campo Grande e ‘consumio, abrazou e destruiu toda a multidam de negros aquilombados pelo Andaya Bambuhy, Corumbá […] Santa Fé, Jacuy, Rio das Abelhas, Rio Grande e Rio Paranahyba’, desinfestando a região”.

Foram inúmeras as etnias negras que, vindas de Goiás e Paracatu, habitaram estas plagas. As escrituras de compra e venda de escravos existentes nos cartórios goianos foram cuidadosamente analisadas pelo historiador Zoroastro Artiaga, permitindo o conhecimento das seguintes:

ANGOLAS – Mercadoria disputada e de alto custo, pela sua vivacidade, inteligência, humildade e boas maneiras; sensual e festeiro, o angolano trouxe para o Brasil muitas doenças como bouba, tinha cafobira, muquirana, sarna, etc.
BALANTOS – Eram dados à prática da feitiçaria, sendo os preferidos pelos garimpeiros para o cangaço e o jaguncismo; a tão falada valentia nordestina tem seu elemento primordial nos balantos, cuja mão-de-obra predominava nos engenhos. Eram disputadíssimos pelos caça-bugres paulistas. A Bahia deve aos balantos a sua condição de Capital brasileira do candomblé.
BAMBAS – De perfil elegante, bem feitos de corpo; as mulheres eram belíssimas; trouxeram a capoeira, e até hoje, quando se faz referência ao bom na luta, vem a expressão “fulano é bamba”.
BENGUELAS – Vinham da Baia de Santo Antônio, em Angola. E como distintivo traziam quebrados os dentes da frente, donde surgiu a expressão “banguela”.
BENINS – Vivazes e distintos, trouxeram a dança da catira ou cateretê.
CACIMBAS – Retintos, vinham do oeste africano; de canelas finas e prestimosos na lida doméstica.
CONGOS – Dados às festas, legaram-nos as danças folclóricas: congados, moçambiques, catopés e outras.
DAHOMEANOS – Estúpidos, selvagens e malcriados, vinham da Guiné setentrional; eram os preferidos para jagunços, por suas tendências criminosas; os quilombolas, os salteadores ou as quadrilhas formadas com pretos e índios tiveram nos dahomeanos a sua equipe de choque.
EGBANOS – Dóceis e dedicados aos seus senhores, quando bem tratados; logo que chegaram a Paracatu e Goiás receberam o apelido de rebolos, porque traziam os rostos lanhados.
GINGAS – Farristas e festeiros, porém, obedientes e trabalhadores.
GRUMANOS – Sanguinários, brutos, cruéis e intratáveis; não demonstravam dor alguma quando levados ao tronco e açoitados.
GUINÉS – Ótimos trabalhadores, dóceis, lavradores hábeis.
MANDINGAS – Prodigiosos na magia negra, chegando a ter renomada escola de feitiçaria em Crixás e Pilar, em Goiás. O mais famoso mandingueiro de Santo Antônio dos Patos, nos tempos da Guerra do Paraguai, foi pai Caxengue. Desentendendo-se com outro feiticeiro, afirmou numa roda que se formara para apartar a briga, que o faria desaparecer. A ameaça foi feita à meia-noite. No dia seguinte, às seis da manhã, seu desafeto foi encontrado arquejante, em estado de coma, na entrada dos Alegres (João Pinheiro). O único meio de viagem para Alegres, naquele tempo, era a cavalo. O percurso era coberto em alguns dias de viagem. Este caso era contado pelo respeitável Zeca Piau.
MINAS – Inteligentes, orgulhosos e altivos, trouxeram conhecimentos da forja e das ligas de ferro, sendo encaminhados às fábricas de ferro e seus artefatos; as mulheres eram extremamente dedicadas às “sinhás”.
MOÇAMBIQUES – Tipo egípcio, elegante e retinto; as mulheres, de boa voz, apreciadoras da música, gostavam de adornos exóticos, sendo as primeiras a usarem o punhado de missangas que ganhou o nome de balangandãs; por serem peritas cozinheiras e mães-de-leite carinhosas, eram as preferidas pelas “sinhás”.
MUSSUCONGOS – Eram muçulmanos, falavam o árabe, jamais conseguindo falar o português com perfeição.
QUIBUNDAS – Mercadoria de pouca aceitação. Vadios, insolentes e preguiçosos; muito vingativos, atacavam à traição.
QUISSAMAS – Lavouristas de cana e bons no engenho, sabendo os segredos da destilação e dos fermentos.

Assim, por tão magnífica contribuição, podemos sentir quais eram os negros fugidos dos moradores de Paracatu e Goiás, aquilombados às margens do Paranaíba. Eles chegaram primeiro, fugindo do tronco, da chibata, dos maus tratos. Alguns, mesmo bem tratados, fugiam para ter de novo a sensação de liberdade. Hoje, Zumbi, Ambrósio e Chico Rei são encarados de maneira diferente, como autênticos líderes de uma raça que não se submeteu de todo. A bravura do preto brasileiro, na crônica contemporânea, seja na guerra ou na liça desportiva, tem raízes de alta envergadura.

* 1: Leia “Carta de Sesmaria de Afonso Manoel Pereira”.
* 2: Leia “A Questão dos Quilombos”.
* Fonte: Domínio de Pecuários e Enxadachins, de Geraldo Fonseca.
* Foto: Christiannethomesviana.blogspot.com.br.

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