DEIXAREI SAUDADE – 31

Postado por e arquivado em 2017, DÉCADA DE 2010, FOTOS.

Durante muitos anos amparei com minhas paredes e meu telhado a marcenaria do Seu Clóvis, Clóvis Simões da Cunha¹. Nos áureos tempos minhas entranhas eram efervescentes, com serras e martelos funcionando o dia todo. Havia uma alegria contagiante dentro de mim. A gente ria muito, e rir com alguém ao seu lado é bom demais da conta, um riso dividido, dobrado, triplicado. Com o ritmo contagiante de trabalho, com o clima daqueles idos de 1960 e 1970, cada dia dava vontade de viver de novo, de novo e de novo, sem parar. Mas o tempo é cruel, inexorável. Por muito tempo fui tudo o que pude comandado pelos ideais do Seu Clóvis. Agora, sou tudo o que não quero, apenas um barracão abandonado esperando o fim. Alguém por aí disse que aquilo que nos fere é aquilo que nos cura. Só se for para quem disse, pois para mim não há cura que modifique o meu destino.

Neste quarteirão da Avenida Brasil, entre as Ruas Barão do Rio Branco e Dona Luíza, vivi muitas emoções através do tempo. O tempo nos trás uma infinidade de perguntas, mas não esclarece as dúvidas adequadamente, mesmo que tudo que ele traga seja a mais pura verdade. E a mais pura verdade que corrói as minhas entranhas é a ausência do Seu Clóvis. Primeiro, pela ausência propriamente dita. Segundo, a mais cruel verdade, é que a ausência do Seu Clóvis significa o meu fim. Antes, vem a solidão. Receber a visita da solidão de vez em quando não faz mal a ninguém. Mas quando a solidão te adota como morada, valha-me todos os santos, é o fim. Ficam na lembrança as últimas vivências com Seu Clóvis e seu tímido sorriso apreciando com os olhos embargados de cansaço a movimentação de uma cidade que ele não mais conhecia. Quanto a mim, bem, sabe-se lá quantos andares terá o prédio que será erguido sobre meus escombros, pouco importa. O que realmente importa é que, desde o primeiro tijolo assentado, passei a pertencer à História de Patos de Minas. E, juntamente com Seu Clóvis, deixarei saudade!

* 1: Leia “Clóvis Simão Cunha: Guaratinga, 30 de Janeiro de 1944”, “1.º Acidente Aéreo”.

* Texto e foto (27/08/2017): Eitel Teixeira Dannemann.

Compartilhe