CONDIÇÃO DA CADEIA PÚBLICA EM 1910

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TEXTO: ALFREDO BORGES (1910)

Quem visita esta infeliz terra, onde Jesus Christo Nosso Senhor, segundo dizem meus irmãos mais velhos, e conforme lhes assegurava minha defunta avó, a quem Deus haja, não se dignou andar, quando por estas pairagens mundiais viveu ainda mais se convence de semelhante verdade historica ao deparar, quase no coração de nossa Cidade, que conta já uma população de 2 a 3 mil almas vivas, com um pardieiro immundo e fetido, tecto a desabar-se e paredes a desmoronar-se – Um Montão de Ruinas tendo, a um de seus lados, e a cima de uma abertura que serve de porta e de accesso para o seu interior, uma taboleta onde se lê, embóra a custo:

Cadêa¹ da Cidade de Patos!…

Insensivelmente, quem vê tamanha calumnia irrogada publicamente a uma tal coisa, ao primeiro Zesé que encontra vai perguntando logo si de facto aquillo é a Cadêa d’esta Cidade…

E tem rasão, pois não!… Segundo cà o escriptor tem ouvido, e diversas veses, aos entendidos que vivem cá em casa si, de facto, há no mundo universo do orbe terráqueo uma cataplasma que deshonra a administração de um Estado como o de MINAS GERAES, o primeiro, ao menos na contagem numerica. É por certo o trambolho que se eleva em uma de nossas praças e que irmana os dois inexistentes indivíduos abaixo:

Cadêa Estadual e Paço Municipal de Patos!

(Continua)

Cadêa de Patos!…

Como disse, Domingo passado, tão pomposo nome è dado nesta Cidade a um pardieiro immundo e fetido, onde os mais rudimentares principios de hygiene reclamada pelas necessidades dos desgraçados reclusos, são vergonhosamente sacrificados pela mais criminosa incuria do poder competente a quem, quando não movessem motivos de ordem politica ou social para minorar os soffrimentos de tantos que alli padecem, fazel-o devia, ao menos, a caridade christã que, estou certo, anima a todos os membros do Governo actual²!…

Mas que soffrão os infelizes encarcerados em nossa Cadêa!

Ainda agora, por occasião da 4.ª sessão do jury, era de ver-se com que cara não transpunhão o corpo da guarda os que, por qualquer motivo alli tinhão […] – Com o lenço ao nariz era feita a rapida trajectoria!

Das prisões exalava acre, penetrante e nauseabundo, o mais desagradavel perfume que pode desprender-se de uma masmorra, onde sò passa uma pouca, d’agua, quando Deus, por sua infinita misericordia, faz chover!…

Dos abusos de poder é este um dos mais lamentáveis e quiçá dos mais revoltantes.

Si á sociedade assiste o direito de segregar de seu seio os elementos perniciosos que lhe empecem, de qualquer modo, a marcha triumphal na estrada do progresso, não tem, entretanto, Nunca, o direito de assassinar entre as quatro paredes de um carcere, com máus tratos, escassa e barata alimentação, falta de hygiene, á mingua de luz e ar os miseros que um dia tiveram o infortunio de commeter um delicto qualquer!

E o Governo, que é a mesma sociedade, não pòde continuar assim a manter em nossa Cidade uma Cadêa em condicções taes, porque contra semelhante barbaridade levantão uma grita os sentimentos religiosos de nosso povo, os principios de caridade de nossa sociedade, e a propria justiça que alli atirou tantos desgraçados, nossos irmãos!…

Aos timoneiros do Estado sollicitamos, pois, as providencias que o caso exige e necessidade urgente impõe, certos de que não morrerá na amplidão do deserto a voz que se levanta em nome dos mais infelizes e desgraçados, dignos de dó e commiseração – os presos da Cadêa de Patos – fóco de podridão, reducto de immundicies!

NOTA: Alfredo Borges, redator e proprietário do jornal O Commercio, assinou os dois textos com o pseudônimo Zé Ninguem.

* 1: Não se trata da antiga Cadeia Pública que atualmente se encontra abandonada, inaugurada em 1914. Leia “Cadeias” e “Inauguração da Antiga Cadeia Pública: Revisão da Data”.

* 2: Christiano José da Fonseca, Cornélio França de Oliveira, Eduardo Ferreira de Noronha, Olegário Dias Maciel (Presidente e Chefe do Executivo), Pedro Antunes Campos e Pedro Modesto da Silva (Vice).

* Fonte: Textos publicados nas edições de 11 de dezembro e 18 de dezembro de 1910 do jornal O Commercial, do arquivo de Altamir Fernandes.

* Foto: Gartic.com.br.

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