DEIXAREI SAUDADE – 54

Postado por e arquivado em 2018, FOTOS.

Não me encare com esse olhar de desprezo se julgando superior às minhas desvalidas paredes, às minhas carcomidas janelas e às minhas oxidadas portas de entrada e saída. Você não tem a mínima ideia do que é a sensação do nascer, do vir ao mundo. Os humanos não têm essa percepção. Mas nós imóveis temos. Enquanto os humanos não se dão conta de seu trajeto pelo canal do parto, nós sentimos cada tijolo sendo assentado, as paredes sendo erguidas, o telhado montado e fundamentalmente a alegria incontida das primeiras almas a nos ocuparem. Você não tem noção de quando chegou ao planeta Terra e muito menos quando pela primeira vez abocanhou faminto o seio de quem lhe gerou. Você cresceu e sabe-se lá o que aprontou de bem ou de mal até o dia de hoje. Mas eu, assim como todos os imóveis, não temos bem e nem mal, somos construídas para um único objetivo: servirmos aos nossos construtores e demais posteriores ocupantes. Nada além disso.

Você um dia será apenas um corpo desvalido em putrefação. Espero, sinceramente, que não se vá nas condições em que estou atualmente. Já fui esbelta no tempo em que não se sabia o que era cerca elétrica. Meus ocupantes ficavam até altas horas da noite conversando com os vizinhos sentados à minha fachada. O tempo de minha servidão passou célere e não percebi o relógio na parede com os ponteiros inertes e nem o calendário a me mostrar que a vida não continua, apenas recomeça a cada 1.º de janeiro. Você ainda tem muita vida pela frente, não perca tempo com o valor das coisas, mas com a sua intensidade. Quanto a mim, basta olhar-me e perceber o que está acontecendo no entorno, esqueça-me devagarinho apressando-se em viver bem com o conhecimento de que passado, presente e futuro não passam de uma ilusão. Talvez amanhã, aqui onde estou, você se depare com entulhos. Não se comova com a minha desilusão. Preocupe-se em fazer parte da História de Patos de Minas, como inexoravelmente sou. E quando eu for, deixarei saudade!

NOTA: O imóvel localiza-se à Rua Padre Antônio de Oliveira entre Travessa Vicente João da Fonseca e Rua Mata dos Fernandes, no Bairro Vila Garcia.

* Texto e foto (29/05/2018): Eitel Teixeira Dannemann.

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