DEIXAREI SAUDADE – 57

Postado por e arquivado em 2018, FOTOS.

Havia um boteco aqui perto frequentado por almas sofridas que labutavam o dia todo na ânsia de se sentirem aliviadas. No cenário tradicional as mesas, cadeiras e conversas tresloucadas, ora mansas, ora agressivas. A mesma gente de sempre, derramando copos de aguardente, de cerveja, senão gelada, até quente ao santo satisfazia. E entre brindes e tira-gostos rançosos, noite adentro seguia o murmúrio adensado no bar, como um bêbado solitário que faz da noite sua vida, e da saideira a esperança de um novo dia. Sei disso porque minhas simplórias janelas ouviam o som de vozes que não tinham mais nada a perder, sem sonhos, com a esperança atirada nas lonjuras do esquecimento. Assim era a vida para os frequentadores daquele bar, num momento deslumbrados etilicamente, loucos, à espera de nada a não ser o outro dia para novamente se sentirem deslumbrados etilicamente. O fracasso e a descrença movem muitas pessoas a se aniquilarem homeopaticamente.

Percebi desde quando fui erguida num brejo infecto¹ que seria uma das mais humildes da cidade. Seria motivo mais do que suficiente para apoderar-se de mim a desesperança que reinava nas entranhas dos frequentadores daquele bar. Ela não veio porque nasci do desejo de almas que só podiam ter a mim, nada mais do que eu. Eu fui a mansão daquelas almas. Assim elas me viam. Pobres e humildes que muitas vezes sofreram com os alagamentos sem se desesperarem e que tinham como alegria incontida frequentar o campo de futebol. Vivi muitos anos na humildade, sofrendo com os bêbados aflitos que teimavam em levar para a sarjeta os meus donos. E assim o tempo passou sem eu perceber as mudanças estruturais ao meu redor. Um dia, ouvi: – Venderam o campo do Mamoré! Não dei importância ao tempo, ferino tempo que nos leva a existência. E com o tempo, foi-se o campo de futebol, veio um centro comercial, e numa triste manhã, vi-me sozinha, amparada por nada além da minha eterna humildade. Muitos dias se passaram e até o telhado me tiraram. Estou no último fundo da condição de um imóvel que veio ao mundo para ser humilde. Não importa, quer queiram ou não, faço parte da História de Patos de Minas. E deixarei saudade!

* 1: A baixada onde foi construído o campo do Mamoré (Estádio Waldomiro Pereira) era um autêntico brejo. O logradouro onde se localiza a humilde casa é a Travessa Anselmo Ferreira, entre a Rua Major Jerônimo e a Rua Toinzinho Amâncio.

* Texto e foto (30/05/2018): Eitel Teixeira Dannemann.

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