ALEIXO ARAÚJO X ANTÔNIO DIAS MACIEL: UM CAPÍTULO DA PENDENGA POLÍTICA ENTRE BORGES E MACIEL

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TEXTO: ALEIXO ARAÚJO (1927)

No dia 11 de Novembro de 1927, recebi o seguinte officio que, na integra, vae transcripto neste jornal, para curiosidade dos seus leitores. Eil-o:

Patos, 31 de Outubro de 1927.

Ilmo. Snr. Aleixo de Araujo

Districto de Santa Rita¹

De ordem do Snr. Presidente da Camara, communico a V.S. que de accordo com as actas de adiamento, foi designado o dia 7 de Novembro proximo fututo, para realizar a 3.ª reunião ordinaria da Camara Municipal.

Saude e fraternidade

Ataualpa Dias Maciel

Secretario do Municipio

Ora, muito bem, o officio supra, no dia 3 do p. passado chegou à Agencia de Catiara, não se podendo verificar quando chegou á Agencia de Patos, por estar illegivel a data do carimbo.

Vindo eu a Patos, no dia 8, e sciente já de que havia na Agencia postal de Catiara um officio a mim destinado, e, encontrando varios vereadores na cidade, desconfiei de que se tratava de alguma reunião na Camara.

E foi, de facto. A Camara estava em sessões.

Não tendo tido, até então, avizo algum para essa reunião, conclui logo ser indesejável minha presença ali, por isso que sou, por enquanto, com grande honra para mim, o unico representante do povo oprimido de minha terra.

Mesmo assim, fui ás sessões, assistindo a duas. Nessa occasião, foi que chegou a Santa Rita o referido officio relativamente à reunião da Camara.

Vejam, agora, os meus leitores, o trajecto desse officio: Patos-Catiara, Catiara-Patos e Patos-Santa Rita!

É desculpavel o engano: algumas pessoas pensam que o vereador pelo districto de Santa Rita reside em Catiara…

Ha muita ignorancia por esse mundo além…

Como disse acima, compareci à Camara, e devo dizer que nada fiz senão apresentar dous requerimentos sobre baixa de impostos indevidos.

Fundamentei, com provas sufficientes, esses requerimentos, não sabendo, atè hoje, qual a solução dada aos mesmos.

As duas sessões que assisti, na Camara, não foram destituidas de interesse para mim, pois que tive a feliz opportunidade de ouvir um discurso do vereador Antonio Dias Maciel¹, discurso que se compoz de duas partes:

1.ª) O orador apresentou um projecto que provou ser de utilidade para o município, embora houvesse no mesmo algumas lacunas a serem apontadas; 2.º) o orador tece um formidavel elogio ao presidente da Camara, Dr. Marcolino de Barros, elogio em que empregou uma enorme quantidade de termos, a ponto de se tornar exagerado.

Digo mais: foi tão exagerado que que chegou a descer para uma linguagem destemperada, linguagem em que a intenção bajulatoria prendeu-se á de xingar de desclassificados, de sem caracter e sem compostura a não sei que pessôas neste município, porquanto è inegavel, è claro que esses termos não podem, em absoluto, attingir os adversarios de S.S., os quaes, se merecem  ogeriza do situacionismo, é simplesmente pelo facto de, com desassombro e com patriotismo, combaterem a carunchosa e detestavel politica dominante.

Afinal, foi tão vasto e tão insosso o discurso do Dr. Antonio Dias Maciel, que não mereceu commentarios nem mesmo da parte dos seus correligionários…

Francamente, como representante de meu districto, eu poderia ter repellido as insinuações d’aquelle orador. No emtanto, reflectindo que tudo neste mundo deve ser levado em conta de accordo com o ponto de partida, e que só espiritos fracos, apaixonados e sem tino politico, poderiam se aproveitar covardemente da tribuna da Camara para fazer insinuações malevolas, resolvi silenciar me.

Não apresentei projecto algum, nem fiz observação alguma aos que foram apresentados, convencido que estou de que tudo seria inutil, por seu, ali, uma voz que clama no deserto.

Comtudo, se uma observação eu tivesse a fazer, n’aquelle recinto, seria a seguinte, relativamente a um projecto que foi convertido em lei.

Por esse projecto ficou o executivo municipal autorizado a subvencioar com 100$000 mensaes ao Sr. Amadeu Eloy, professor particular n’uma das fazendas deste município.

Ora, está ahi um erro, um absurdo!

Não quero com isto dizer que eu seja um inimigo da instrucção.

Pelo contrario, tenho me batido sempre pela alphabetização do povo, no meu districto.

Acho que a União, o Estado e o Municipio devem empregar a maior parte de suas rendas em beneficio da instrucção, em todos os recantos do Paiz.

Mas acho tambem que a solução deste grande problema deve ser feita com criterio, para que assim se desbrave a ignorancia do povo. Acho que é um crime incrementar essa ignorancia com os dinheiros publicos, attendendo-se antes aos interesses da politica que aos da instrucção.

Manter como professores, á custa dos cofres públicos, os Hypolitos, os Gonzaga da Silva, os Amadeu Eloy e muitos outros que por ahi, ignorantes, estão leccionando, é trabalhar para a causa do analphabetismo.

Verdade é que os dous primeiros citados são professores estaduaes, mas a responsabilidade de suas nomeações, delles, è toda do governo municipal.

Amadeu Eloy, segundo estou informado, com segurança, exerceu, durante dous annos, o magisterio em Quintinos, e, não lhe foi possivel, por escassez de tempo, apresentar um alumno siquer a exame do 1.º ano do curso primario.

No emtanto, − que patriotismo dessa politica! − è a um professor assim que a Camara de Patos subvenciona com 100$000 mensaes!

Concluindo

Não inculpo ao vereador que apresentou esse projecto relativo à subvenção de 100$ mensais so Sr. Amadeu, não.

Elle nem siquer o leu, mas somente assignou.

Assim sendo, é muito natural que até ignore a extensão do mal que tal projecto vae fazer ao município, talvez aos proprios filhos do autor do projecto.

Pobre povo! Gritas, e com razão. Ha quanto tempo vens clamando pelo bom emprego dos impostos que pagas á municipalidade? Onde estão os dinheiros das administrações passadas, e em que foram applicados?

Para terminar as observações que fiz nas duas sessões que, por accaso, assisti, na Camara, vou fazer a mim mesmo esta pergunta: O Dr. Marcolino tem alguma culpa com o projecto a que venho me referindo? Nenhuma.

Então, quem ou quaes os culpados?

Somos nós que, pela nossa falta de escrupulos, não sabemos e não temos procurado saber o que se tem feito com a renda do município; somos nós que agimos sem collocar-mos a mão em nossa consciência; somos nós que não ponderamos os nossos actos de vereadores, firmando-nos, com egoismo, na phrase inconsciente: − “Não tenho que dar satisfações”.

Somos nós os culpados!

E muito culpados, porque ainda nos permitimos o direito de fallar em envergadura moral, falta de critério, de compostura e o que é mais grave ainda: admittimos que haja gente mais desclassificada do que nós!

O bom senso é uma optima qualidade, da qual deviam se revestir sempre aquelles que fallam ao publico.

Ha individuos que, pelo facto de se acharem numa tribuna, julgam-se com o direito de fazer as mais tolas e injustas insinuações, esquecendo-se de que a liberdade tem tambem um limite: o limite da tolerancia e da paciencia alheias.

Aleixo Araújo

Santa Rita de Patos, Novembro de 1927.

* 1: O distrito de Santa Rita de Patos foi desmembrado de Patos sem ainda o “de Minas” em 17 de dezembro de 1938, através do Decreto-Lei Estadual n.º 148, transformando-se no município de Presidente Olegário.

* 2: Filho de Farnese Dias Maciel e neto do patriarca Antônio Dias Maciel, o Barão de Araguari.

* Fonte: Texto publicado com o título “Obra do Acaso” e subtítulo “Um curioso paradeiro de correspondencia − Algumas observações” na edição de 11 de dezembro de 1927 do Jornal de Patos, do arquivo da Fundação Casa da Cultura do Milho.

* Foto: Pt.pngtree.com.

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