SOBRE O MUNICÍPIO EM 1906

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TEXTO: JORNAL O TRABALHO (1906)

Sr. Redactor do “Trabalho”

Felicito o municipio de Patos, nossa terra querida, pelo facto do reapparecimento do jornal, levando nos reconditos dos districtos de que se compõe este municipio, as noticias que todos interessam como informações uteis ao proveito da actividade humana.

Sinto faltar-me o cabedal preciso para bem collaborar comvosco na transmissão dos bons pensamentos, levando interessantes noticias nas columnas do jornal; mas com vossa benevola permissão envio-vos estas linhas, que se julgardes em termos publical-a-eis.

Esforçando-me no sentido de cooperar para o progresso de nosso municipio, em continuação de alguns artigos que já temos publicado relativamente a este districto do Areado, venho hoje communicar-vos que este districto é um dos mais ricos do Municipio em minerais e terras de culturas.

Em tempos idos, foi explorada a jazida de chumbo e prata, que se acha no interior da Fazenda do Chumbo e ha annos abandonada. A grande jazida de ferro de propriedade do saudoso dr. Antonio Zacarias jaz tambem em abandono, causando grande pesar a todos que viram o inicio animador que teve a exploração daquelle minerio e hoje se vêm desabando aquelles predios que custaram contos de reis¹.

Consta-nos tambem existir na fazenda das Malachias, um minerio que o caçador, encontrou escoriado e lavrando-o com a faca que trazia, achou semelhante ao cobre, mas isto carece de provas.

Têm-se extrahido diamantes pequenos nos rios Areado e S. Bento.

As terras de culturas são esgotadas pelos lavradores que em busca de fortuna derribam as mattas e fazendo suas roças pelos processos rotineiros, conseguem ter grandes milharaes e a engorda de centenas de porcos, que são abatidos desde essa cidade até S. João d’El-Rey e outros pontos, onde encontra-se sempre bom preço.

Nestas terras excepcionaes, onde produz com abundancia todos os cereaes, se fosse empregado um trabalho intelligente, outra seria a nossa posição. Infelizmente não sendo proprietarios do solo, a maior parte dos habitantes, não se importam de montar fazendas; fazem simples ranchos de capim no interior das matas e depois de conseguirem a retirada de diversas porcadas e destruir bastante matta, retiram-se de um logar para outro na mesma fazenda, ou si arranjam pecúlio vão para a cidade, e assim vae succedendo com prejuizo para o Estado e Municipio.

A riqueza de criminosos homisiados por aqui é grande. Em sua busca por aqui passou o Sr. Delegado Militar desta circumscripção. Sobremodo louvavel pelos fructos que produzio foi a bem orientada campanha iniciada pelo Sr. T.e Delegado contra os vadios de toda especie que infestam o nosso municipio, vivendo ás expensas dos incautos e operosos lavradores, deixando que a lavoura pereça por falta de braços.

O jogo, a devassidão, a desordem constituem as unicas occupações dos taes individuos, alguns delles chefes de numerosa familia que abandonam na mais desoladora miseria.

Para esses todo rigor das medidas empregadas é pequeno, e torna-se preciso que as autoridades dos quarteirões sejam investidas de poderes mais amplos, para continuarem com proveito essa campanha em tão boa hora iniciada.

A apprehensão de armas, sendo uma medida necessaria e util, como preventiva de factos lamentaveis, foi comtudo nesta occasião prejudicial, pela forma com que o Sr. T.e Militar procedeu, no esforço de bem cumprir com os seus deveres; não se lembrou porem de que estes instrumentos embora offensivos para os que delles usam para fins inconfessaveis, são de muita necessidade para os que lavram as terras e se dedicam a agricultura. A cada momento na vida agricola, o roceiro precisa da faca e da garrucha ou espingarda para se enfrentar as mattas cerradas e fazer face aos animaes ferozes que habitam nessas mattas e louvando pois o zelo empregado pelo Sr. T.e Delegado, dirigimos-lhe respeitosamente um apello; é que na apprehenção de armas não seja esse zelo excedido, para que muitos pobres trabalhadores não se vejam obrigados, a com que custo! a comprarem outras facas, garruchas ou espingardas, instrumentos que os patrões não fornecem e que são indispensaveis ao sertanejo.

Quintinos², 12-12-1906

Um Lavrador

* 1: Leia “A Fazenda do Chumbo”, “Antonio Zacarias Alvares da Silva”, “Fábrica de Ferro do Areado” e “Documento Sobre a Fábrica de Ferro do Areado”.

* 2: O Distrito de Quintinos pertenceu ao Município de Patos de Minas até 17 de dezembro de 1938, quando, através do Decreto-Lei Estadual n.º 148, foi transferido para o Município de Carmo do Paranaíba.

* Fonte: Texto publicado sem título e com assinatura de “Um Lavrador” na edição de 23 de dezembro de 1906 do jornal O Trabalho, do arquivo de Eitel Teixeira Dannemann.

* Foto: Trecho original da publicação.

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