RAFAEL GOMES DE ALMEIDA / ENTREVISTA − 2010

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Este é Rafael Gomes de Almeida¹. Pessoa que plantou, ao longo de sua vida, inúmeros retalhos profissionais: contador, jornalista, escritor de livros e letrista de canções. Foi reconhecido e vitorioso em todos esses segmentos, mas prefere ser lembrado não pelos retalhos, mas pelo homem por inteiro, com a marca da autenticidade. Patos de Minas foi a luz que surgiu em 1943, quando os seus pais deixaram a cidade de Luz, em busca de uma nova. Era o começo de nova história. Dessa vez, a pedido de Rafael, uma história sem pausas ou interrupções. “Se me querem, me levem por inteiro, porque não nasci para ser retalhado”.

Sem retalhos e cortes, segue abaixo, a entrevista:

Em 1943, sua família veio de Luz para Patos de Minas. Por quê?

No meado da década de 1930, houve uma crise muito violenta na cafeicultura brasileira e meu pai era o maior cafeicultor do centro-oeste mineiro e, com a super safra, os EUA houve por bem pressionar a baixa do preço do café. O governo de Getúlio Vargas determinou que se queimasse o café excedente para não se sujeitar à baixa do preço do valor de exportação e não indenizou por essa queima. Os cafeicultores não suportaram o ato do governo brasileiro e foram vender suas fazendas, para pagar as dívidas e particulares. Daí, meu pai mudou-se para Patos, trazendo toda a família. Essa matéria foi revista pela rede globo de televisão na novela Terra Nostra.

Que referência seus pais, Ronan Gomes de Almeida e Maria da Cunha Almeida, representaram para você?

Para falar sobre meus pais, em nome da justiça e do nosso princípio de família, eu não poderia omitir uma terceira pessoa: a “Di Preta”, mãe adotiva de toda a família e filha adotada por meus pais. Meu pai era uma prudência coberta de orgulho, não sabia gritar, corrigia olhando; minha mãe, como toda mulher da época, submissa e silente, seu sorriso significava a aprovação e o enrugar da testa, a advertência. A “Di Preta” foi uma freira que não deu certo, porque o convento não aceitava gente de cor. Então ela optou por fazer de nossa casa o seu convento particular e a igreja perdeu uma santa e nossa família ganhou um anjo.

O que marcou mais a sua infância?

O direito de ser livre com responsabilidade, pois não existia as peias do ECA, pois a gente podia brincar pelas ruas, estudar e, nas horas vagas, vender verdura, frutas, engraxar sapatos, e defender um dinheirinho. A gente fazia isso porque queria ser útil, não o fazia por obrigação. Nos brinquedos, era jogar finca, jogar pião, jogar futebol no largo da matriz velha ou então ir para as fazendas próximas catar gabiroba, araticum, jatobá, essas frutas dos matos.

Formou-se em Contabilidade em Uberlândia e está nela até hoje; é apaixonante essa profissão?

A contabilidade em si, por ser uma ciência exata, não sofre muitas modificações no seu sistema estrutural, mas os atos que a envolvem, esses sim, são apaixonates, porque cada firma ainda que do mesmo ramo tem um toque diferente; cada contrato social, pelas circunstãncias dos sócios, tem que ter o perfil dos contratantes e mais importante é que, na contabilidade, você tem que ser o profissional a andar na frente do comerciante, porque a lei e o direito modificam a estrutura empresariam e fogem do alcance do comerciante e não podem fugir do alcance do contador. Eu sempre fui um ouvinte e um confidente dos meus clientes e, de acordo com as pessoas que trabalhavam comigo, o meu preço era um pouco salgado, mas o resultado surgia logo.

Você foi uma dos fundadores da Associação dos Contabilistas, hoje Sindicato; um dos precursores do ensino da contabilidade e foi o primeiro assessor fiscal da Associação Comercial e Industrial de Patos de Minas, correto? Como foi essa história?

A nossa equipe de trabalho no Contralux, no começo da década de 60, participou da reunião de fundação da Associação dos Contabilistas e, logo depois de indicado para compor a diretoria, eu renunciei ao cargo, porque um colega me denunciou por falta de ética, por que o jornal “A Folha Diocesana”, que eu ajudei a fundar, noticiou que o meu escritório estava sendo instalado em sede própria. E o contador enciumado achou que isso fosse propaganda, daí segui acompanhando o Sindicato dos Contabilistas, mas nunca ocupei cargo de direção, participando tão somente da redação dos dois estatutos. Quando assumi o cargo de Assessor contábil fiscal da Associação Comercial, isso em 1957, cargo não remunerado, sugeri um simpósio fiscal em Patos de Minas, com fiscais de Patrocínio, a que estávamos subordinados. Os comerciantes se assustaram e eu ponderei que os fiscais deviam conhecer nossos comerciantes e vice-versa. Afinal, a proposta foi aceita, pois eu não admitia a condição de pedir a bênção a Patrocínio, para os destinos de nossa cidade. Elaborei, em comum com os comerciantes, as nossas dificuldades e preparamos um extenso questionário que foi previamente encaminhado à chefia de Patrocínio. No dia marcado para a reunião, a Associação dos produtores, hoje Sindicato Rural, ficou repleta. Após os esclarecimentos, debates, e contrapropostas, o “Jornal dos Municípios” divulgou, literalmente, os resultados constantes em ata, num esforço hercúleo do presidente da ACIP, José Maria Vaz Borges, vulgo “Marreco”, de todos nós. A matéria teve tanta repercussão que seus efeitos vigoraram até 1967, quando entrou em vigência o Código Tributário Nacional, Lei 5.172/66 e seus efeitos retroagiram aos atos anteriores ao referido código. Diante desse trabalho, o “Jornal dos Municípios” teve uma tiragem extraordinária para atender os comerciantes, contabilistas e fiscais de toda Minas Gerais. Assim, o convívio entre fisco e contribuintes ganhou outra roupagem, e arbítrio fiscal de antes deu lugar a um convívio salutar.

Você, pelo seu talento, deu sugestões ao novo Sistema Tributário Mineiro: para a regulamentação do ICMS e para a modificação no Sistema Financeiro de Habitação. Conte-nos como foi.

Com a introdução do novo sistema tributário nacional, a lei 5.172, lei esta do governo revolucionário, havia uma inteligência tão grande na lei que os estados começaram a tropeçar no regulamento daquilo que lhes competia. Esse vício permanece até hoje e atingiu a legislação brasileira, porque o legislativo, ao aprovar, delega poder ao executivo para regulamentar e o executivo dá poderes ao ministério ou às secretarias competentes para disciplinar. Então, nós temos uma lei, um decreto, uma resolução ou portaria, versando sobre a mesma matéria e cada um  interpretando de um jeito. Eu me insurgi contra estas alternâncias, acusando os erros e distorções e, por incrível que pareça, o Chefe do departamento de Fiscalização de Minas Gerais achou que a minha argumentação era infundada, alegando que eu queria aparecer. Nesse intervalo, A Associação Comercial de Minas Gerais e o Conselho Regional de Contabilidade de Minas Gerais convidaram-me para ajudar a redigir um novo texto, porque comungavam com as falhas do mesmo. Foi aí que eu comecei a aparecer para o mundo tributário de Minas Gerais, sendo que esta “aparecer” não deve ser encarado como pejorativo, pejorativa foi a alegação do Chefe de Fiscalização de Minas Gerais, convidado pelo Sindicato dos Contabilistas de Patos de Minas, apresentei sugestões cabíveis para a época e em ambos os casos apenas uma sugestão foi recusada: se os homens são iguais diante da lei, por que o sistema tributário dá tratamento diferenciado a cada comerciante? No tocante ao trabalho SFH, recebi um fax do deputado Antônio do Valle, recém-eleito, solicitando um projeto de impacto, pois ele queria que o mesmo tivesse repercussão. Sugeri que estudasse os efeitos do Plano Collor, pois o governo estava pagando mais de 85% de correção monetária aos valores até R$ 50,00 e, no excedente, o percentual caía para 42,5%. Nos contratos, onde a CEF ou qualquer estabelecimento bancário fosse credor, a correção cobrada era plena, isto é, mais de 85% sobre o valor total. O mutuário perdia na poupança e perdia no saldo devedor da casa própria, o que representa prejuízo em dobro. O Deputado Antônio do Valle passou um fax me agradecendo e outro, se não me engano, para o Sérgio Cutolo, que era Presidente da CEF e este acionou o Ministro da Fazenda que, se não me engano, era o Maílson da Nóbrega. O Ministro da Fazenda, de imediato, comunicou ao Presidente da República que baixou uma Medida Provisória, exatamente em cima da do que seria o projeto encaminhado pelo Antônio do Valle. Os macacos velhos puxaram o tapete do jovem deputado.

Quais as alegrias e frustações da profissão?

Devo confessar que, na minha vida profissional, eu plantei rosas e para colhê-las eu me machuquei muito nos espinhos. As rosas foram tantas que da turma que me seguia e se formou comigo, e procurou seguir o meu exemplo, eu fiquei sozinho. Os espinhos foram os esquecimentos, as ingratidões e, principalmente, por uma manobra de um advogado de um dos indiciados que sabendo da firmeza do judiciário patense, provocou impedimentos nos juízes desta comarca, para transferir o processo para a comarca de Carmo do Paranaíba−MG, onde o juiz tinha conluio com o advogado, e acabei, juntamente com outras pessoas envolvidas, num processo de sonegação fiscal, que se arrastou de 1964 a 1970.

E a autoria do Estatuto do Artesão de Patos de Minas, também é sua?

Não acho que ter elaborado o estatuto do artesão de Patos de Minas seja uma coisa tão importante como a princípio parece. Por trás desse estatuto existiram duas pessoas que foram mais importantes do que o meu trabalho: Frei Leopoldo-Frade Capuchinho e Maria Inês Martins, então, respondendo pelo SETAS-MG. Frei Leopoldo num trabalho de gigante se preocupou em melhorar a renda das pessoas mais pobres do bairro Santa Terezinha e abriu o curso para ensiná-las a bordar. O trabalho cresceu de tal maneira que ele não tinha como sustentar as artesãs e aí surgiu a figura de Maria Inês Martins, em nome das SETAS-MG, para angariar verba para suprir as necessidades. Foi então que ambos me procuraram, em 1979, e eu me prontifiquei a fazer o serviço, materializando o ideal de um sonhador e transformando em possibilidade a liberação de verba por parte do Estado. Como deu certo, tem muita gente querendo ser o pai e o que é pior com nomes diferentes, mas com finalidade diferente, sendo que alguém tira até proveito em cima dos infelizes.

Em seguida, nasceu o Rafael no jornalismo. Em quais jornais e revistas colaborou? Algum artigo especial?

Eu comecei no jornalismo por solicitação de Dom José André Coimbra e indicação do Padre Almir Neves de Medeiros e Padre Josias Tolentino de Araújo. Dei a formatação jurídica ao jornal “Folha Diocesana” e me entregaram uma coluna em que eu devesse abordar assuntos sociais e políticos. Nesta época, sem nenhuma experiência no jornalismo, devo ter escrito muita bobagem. Depois, colaborei com o “Jornal dos Municípios”, “Correio de Patos” e a revista “A Debulha”. Retornando à “Folha Diocesana”, enquanto Dom José Belvino do Nascimento foi seu diretor, ao ser anunciada sua transferência para Divinópolis, eu deixei o jornal antes dele. Logo em seguida, Dom Jorge Scarso se mudou para Niterói, a “Folha Diocesana” morreu e com ela o sonho de Dom José André Coimbra, o Bispo da Paz. O artigo especial, no meu modo de ver, foi publicado no “Correio Brasiliense” com o título “O tributo dos meus sonhos” que mereceu uma charge do jornal e se transformou em projeto que se encontra nas gavetas dos deputados até hoje e creio que não sai nunca; trata-se do imposto único também chamado “valor agregado” que é tão simples, que não cabe na cabeça de nossos legisladores.

A sua história na literatura é muito importante. Inclusive, Altino Caixeta de Castro, o Leão de Formosa, o nosso poeta maior, disse: “A trova do Rafael, é como fruta do mato, nasceu à toa e dá flor”. Conte-nos sobre suas obras.

Eu não tenho tantas obras assim não. Além dos artigos, dos diversos hebdomadários, publiquei dois livros: “Xibius do meu Garimpo” e “Passagens da Vida”. Participei de todos os Festivais da Canção, ora concorrendo, ora dirigindo e no tocante a “A trova do Rafael é como fruta do mato, nasceu à toa e dá flor”, foi dita pelo nosso querido Altino Caixeta de castro, “Leão de Formosa”, isso é fruto da generosidade do nosso poeta acumulada com a humildade do mesmo, que só via o lado bom do que a gente fazia, para servir de estímulo. Eu não sou nem afluente desse rio.

Lembro-me, em 1971, daquele programa da TV Itacolomi, “Mineiros Frente a Frente”, onde você foi redator e apresentador. Foi Marcante?

Em 1971, eu recebi um telefonema do então Prefeito Dr. Sebastião Silvério de Faria, pedindo que eu comparecesse ao seu gabinete, pois ele precisava muito de mim. Imediatamente, pela amizade que mantínhamos, atendi o seu pedido e me deparei com o Prefeito e a turma da TV Itacolomi e o “grand monde” patense, discutindo a apresentação do “Mineiro Frente a frente” e havia o consenso de que Patos não tinha os requisitos pra enfrentar o referido programa. Eu peguei os tópicos exigidos pela TV Itacolomi e perguntei a duração do programa, a resposta foi me dada que o programa duraria 3 horas para as duas cidades em partes iguais. Ponderei ao Prefeito que Patos tinha material necessário para fazer uma semana de programa, principalmente porque havia uma parte de folclore muito acentuada. Assumi o comando do programa e nós fomos de tal maneira prejudicados no julgamento que, para retratar, nos foi concedida mais 1 hora em outra oportunidade aprazada para apresentarmos o Festival Intermunicipal da Canção de Patos de Minas.

Vamos entrar no mundo que é a sua paixão: música! Como letrista, venceu quantos festivais?

Nos Festivais da Canção, para deixar mais clara a resposta em relação à pergunta, venci o Festival de 1968, pelo júri popular com a “Canção do Jardineiro”; 1969 com a melhor letra em “Samba de Dois”; 1970, com a melhor melodia e campeã do júri popular; “Marilene”; 1971 não concorri, fiquei coordenando o Festival e fizemos o lançamento do LP “Minha terra canta assim”, com cantores patenses e músicas dos festivais de nossa região, inclusive o Festival Estudantil; em 1972, com a melhor letra “O milho de Deus”; em 1973, com a melhor letra “Reencontro”; em 1974, não concorri, porque como presidente do Júri, o Disk-Jockey Big Boy, estava hospedado em minha casa, e eu achei prudente não concorrer.

Marilene, dedicada a uma de suas filhas, gravada em 1970, foi seu maior sucesso?

A música “Marilene” foi uma gravação feita numa época incomum e, sendo o primeiro compacto gravado em Patos de Minas, evidentemente que a divulgação fez com que ela se tornasse mais conhecida, mas para o autor toda obra é como se fosse um filho: você não gosta de um mais do que de outro. Se me permite eu fazer uma comparação com uma pergunta que me foi feita sobre o meu livro de trovas. A pergunta foi: De qual trova você mais gostou? E eu respondi:

“A trova que eu mais gostei
E me deixou mais feliz
Foi uma que eu sonhei
E até hoje não fiz”.

Assim eu não provoco nenhuma ciumeira nas coisas que eu faço.

E a história do lançamento de um LP reunindo músicas dos Festivais de Patos, como foi?

O lançamento do LP “Minha terra canta assim”, foi uma sequência da gravação de “Marilene” em que o Valdir Carvalho, vencendo o concurso de calouro no programa “Sérgio Bittencourt”, foi levado pela TV Itacolomi para apresentação ao vivo, juntamente com a Sônia Nascimento. Depois aconteceu o programa “Mineiros frente a frente” e, em ambos os casos, fiquei muito ligado ao jornalista e à inteligência ímpar de André Carvalho que facilitou a gravação de “Marilene” e abriu as portas para a gravação do “long-play”. Para este, tive o aval do Lions Clube Centro e tivemos o apoio sempre marcante do Café Cristal. Como foi dito na resposta anterior, foi uma produção exclusivamente com artistas patenses e compositores da região.

Quando o Guilherme Manito foi se apresentar no “Programa da Xuxa”, ele inclui músicas suas no repertório dele. E, realmente, o que aconteceu entre a “Xuxa Produções” e o Rafael:

O Guilherme Manito sonhava em gravar um “long-play” e fez diversos testes na Xuxa para ganhar a gravação. Quando o Manito, pai do Guilherme, me perguntou se eu tinha uma música que servisse de “carro-chefe” para cantar no programa da Xuxa, cantei o “Devaneio” e ele falou que era isso que ele estava querendo e pediu para gravar também “Marilene” e eu autorizei. Xuxa Produções mandou um termo de divulgação nacional das músicas “Devaneio” e “Marilene” e eu, não concordando, assinei o termo de “divulgação exclusiva com Guilherme Manito”. A Xuxa não gostou e pegou a fita e jogou no acetato, ficando uma gravação de qualidade duvidosa.

Em 1994, você destacou-se também na área religiosa, como colaborador da Campanha da Fraternidade, apresentando temas, sugestões e letras de músicas. Como foi?

A minha participação na Campanha da Fraternidade foi em 1994, com o tema “A Família”. O lema: “A família como vai?” me tocou sensivelmente, porque eu já conhecia a prece da família. Padre Zezinho me mandou uma carta carinhosa e eu concorri com a letra e fiquei em primeiro lugar no Brasil com o canto da entrada e a prece da família, que já era bem antiga, ficou sendo o hino da Campanha da Fraternidade.

Quando o Padre Zezinho escreveu-lhe uma carta convocando-o para continuar o trabalho de evangelização, em forma de canção, você já tinha sido consagrado como vencedor numa campanha. Como aconteceu isto?

Até 1986, Sãozinha e eu éramos uma igreja de varejo até que fizemos um Encontro de Casal com Cristo e, por atenção ao Monsenhor Isael, depois Padre Rui César Medeiros, nós fomos correndo por esse mundo afora, buscando estoque para ver se a gente conseguia trabalhar no atacado. Aí chegou a carta do Padre Zezinho, era a carreta que faltava, mas com a saída do Padre Rui César Medeiros para Guimarânia a gente deu uma marcha ré danada. Agora é esperar um reencontro e eu sei que ele está para vir.

Gravadas, já tem quantas músicas?

Gravadas eu tenho: “Marilene”, “Canto de amor em noite de paz”, “Samba de Dois”, “A Canção do Jardineiro”, “Milho de Deus”, “Lições de um professor”, “Devaneio”, “Prece de Romeiro” e “Hino ao meu Sertão”.

Você conviveu com pessoas ilustres em Patos: Dom José Coimbra, Dom Belvino, Padre Almir Neves de Medeiros, Oswaldo Amorim… como é ter tido a oportunidade de conhecer pessoas assim?

A minha geração, assim como a geração do Donaldo, foi privilegiada porque o que muita gente não sabe é que o Donaldo é o DAT da “Folha Diocesana”, logo após a sua fundação, dessa forma o Donaldo, assim como eu, conviveu com Dom José André Coimbra, com o Padre Almir Neves de Medeiros, formador de líder para a sociedade, mandava e desmandava tudo pra mim. O Oswaldo Amorim, um homem que sonhava ver uma Patos melhor, sofria com a politicalha e o que é pior, era tido como um megalomaníaco de ideias, quando era um carente de compreensão. Um dia, a história vai contar. Agora, o Donaldo não conviveu, mas eu convivi e convivo ainda com o Dom José Belvino do Nascimento, que eu defino como um eclipse na minha vida, mas até hoje recebo a luz que vem desse convívio.

Você e a Sãozinha estão casados há mais de 50 anos. Qual a receita para manter a chama acesa?

Sãozinha e eu fomos preparados no namoro, no noivado, e na vida após o casamento, convivendo com o Padre Almir Neves de Medeiros. A Sãozinha reclamou para o Padre Almir que, no casamento, a cruz tem que ser carregada pelos dois. Um dia, ela voltou a reclamar: “Padre Almir, parece que a cruz do meu lado pesa mais”. O Padre retrucou: “Como você carrega a cruz?”. A Sãozinha respondeu: “Eu vou na frente e o Rafael atrás”. O Padre bradou: “Tola, não é assim não, põe o Rafael ao lado, senão o peso fica todo em cima de você, você não conhece o seu marido?”. Assim a gente leva a vida, sabendo que a felicidade existe, quando se sabe administrar os problemas sem transferi-los para terceiros.

Sente-se uma pessoa realizada?

Eu tenho certeza que eu fiz da minha vida uma forma de trabalhar em plenitude, exigiram muito de mim. Às vezes, eu não conseguia, porque pediam acima da minha força, mas um homem realizado é aquele que não se acovarda diante dos problemas da vida, e diante dos problemas da vida eu nunca me acovardei.

Tem medo da velhice?

Biblicamente, há um tempo de cuidar da terra, um tempo de plantar, de esperar e um tempo de colher. Eu creio que sou um fruto querido de deus, e não há razão pra ter medo da velhice, quando chegar a hora da colheita. Mas é preciso ter cautela porque se demorar a colheita, prevenir-se para não cair no abandono.

Conte-nos, afinal quem é Rafael Gomes de Almeida.

As pessoas sempre quiseram me fotografar por dentro e por fora, para tirar uma carreta de defeitos e ver se encontravam algum Xibiu que compensasse. Eu me precipitei e lancei meu segundo livro, “Passagens da Vida”, em que eu me mostro por inteiro, com meus defeitos e minhas virtudes, para que pudessem me deixar um pouco mais em paz. E para finalizar, parafraseando o Dr. Dácio Pereira da Fonseca, eu digo: “O Rafael chama a atenção de todas as pessoas e segmentos diversos pela sua capacidade profissional, jornalística, poética, suas composições, mas ninguém percebe a grandeza maior desse homem: a autenticidade. O Rafael é o homem de barro habitado por Deus. A sociedade se aproxima de Rafael, mas quer levar só a sua inteligência, não quer aceitar o homem de barro. E ele não foi feito para ser atomizado e diz: “Se me querem, me levem por inteiro, porque não nasci para ser retalhado”.

* 1: Leia “Rafael Gomes de Almeida”.

* Fonte: Entrevista de Donaldo Amaro Teixeira publicada com o título “Um Homem de Barro Habitado por Deus” na edição n.º 17/2010 do tabloide Green Card News.

* Fotos (21/10/2015): Eitel Teixeira Dannemann, publicadas em 23/10/2015 com o título “Rafael Gomes de Almeida”.

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