AMIGAS BÊBADAS, AS

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

No dia em que o público tomou conhecimento do acontecido, o alvoroço em Periquitinho Verde foi daqueles que ninguém consegue avaliar corretamente. Porque, a bem da verdade, o mal-entendido que atingiu em cheio duas jovens senhoras do andar de cima da sociedade local, não foi fruto de alguma situação maliciosa, ou pecaminosa, ou de traição conjugal, mas um desses acasos da vida em que o que não é parece ser, e aí, pronto, a tempestade desaba, e quando termina deixa em seu rastro apenas os escombros de um casamento que todos tinham como sólido e harmonioso. Esse foi o problema que complicou a vida das duas donas de casa mencionadas, cujos nomes não são aqui divulgados por razões perfeitamente compreensíveis.

Segundo o Zé Corneteiro, maior fofoqueiro da cidade, o mundo está tão cheio de mentira que, tirando Papai Noel, não se pode acreditar em mais ninguém. Por isso o caso, por ser melindroso, deveria permanecer guardado bem no fundo do baú do esquecimento, e para não sair mais de lá porque se a ferida fosse sua você não gostaria que os outros ficassem cutucando nela sem mais, nem menos. Mas apesar de tudo, dois motivos fazem com que a história seja agora relembrada: primeiro, porque foi amplamente divulgada pelo radialista Leonardo Branco em seu programa matinal “Se eu sei… tu sabes, ele sabe!”, na PRK25 – Rádio Periquitinho, e aí todo mundo passou a dar sua opinião sobre o acontecido. Depois, porque não custa nada aconselhar aos de língua solta para que tomem cuidado ao falar de terceiros, pois o que parece ser, muitas vezes não passa nem perto daquilo que pensamos que seja.

O fato é que duas amigas, casadas, voltavam muito “alegres” de uma reunião com algumas ex-colegas dos tempos de estudo na Fepeve – Fundação Educacional de Periquitinho Verde. Nesse encontro a cerveja tinha sido servida com fartura, e por isso, no caminho para casa, elas sentiram uma vontade incontrolável de fazer xixi. E como já tinham chegado àquela situação crítica em que as pessoas, por mais que “apertem a torneira”, já não conseguem impedir que a bexiga ponha para fora o que não quer continuar guardando, acharam melhor parar o carro para que pudessem descer e resolver o problema. Só que isso aconteceu em um trecho deserto da rua Tesouro Negro, próximo ao cemitério lá existente.

Estacionadas ali, mas com o coração batendo acelerado em virtude do que pretendiam fazer, as duas olharam cuidadosamente para diante e não viram ninguém; depois olharam para trás, e também não enxergaram vivalma. Em seguida, para a direita e esquerda, e não perceberam qualquer sinal de gente nas proximidades. Mas elas continuaram hesitantes, medrosas, sem saber o que fazer, e enquanto uma dizia angustiada “Vai, Zezé, porque eu já não agüento mais!…”, a outra respondia com voz sumida: “Peraí, Dasdores! Vamos olhar direito porque pode ter alguém espiando”. Ao que a primeira replicava, aflita, quase chorando: “Vamos, Zezé, vamos… porque em mim já está pingando!”.

Essa indecisão não demorou muito tempo, coisa de um minuto, estourando, ao fim do qual, como não tinham outro jeito de acabar com aquela situação desagradável que as forçava a manter as pernas bem juntinhas, apertadinhas uma contra a outra, elas decidiram urinar dentro do cemitério, apesar de se sentirem apavoradas diante da possibilidade de encontrarem alguma “alma do outro mundo” passeando pelas redondezas da sepultura onde morava.   Afinal de contas  – concordaram enfim as duas jovens senhoras -, “deve ser melhor pra nós enfrentar um fantasma inativo do que um ou dois homens mais que ativos”.

A Dasdores, que se declarava mais “apertada”, foi a primeira a deixar o automóvel. Ela passou apressada pelo portão destrancado e cuidou de se aliviar no primeiro canto escuro que encontrou, por trás de uma sepultura com estátua e tudo, mas quando já estava quase terminando lembrou-se de que não tinha nada para se secar. Então, sem titubear, ela se pôs de pé, tirou a calcinha já meio molhada, enxugou com ela o que precisava, jogou a peça fora e voltou correndo para o veículo.

Aí foi a vez da segunda amiga, a Zezé, que repetiu o mesmo procedimento das Dasdores, porque, afinal de contas, esse é um tipo de comportamento feminino praticamente padronizado. Mas como também não tinha nada com que se enxugar, ela pensou: “não vou jogar fora minha linda e caríssima calcinha de renda”. E unindo a palavra à ação, tratou de pegar a fita de uma coroa de flores que estava depositada em cima do túmulo ao lado, retirou dela um pedaço do tamanho que achou suficiente, colocou-o por dentro da calcinha, para não molhá-la, ajeitou-se, voltou ao veículo, entrou, e de imediato as duas trataram de ir embora, e bem depressa, porque a meia-noite já havia ficado para trás.

No dia seguinte, um dos maridos ligou para o outro e revelou:

– Minha mulher chegou ontem de madrugada, bêbada e sem calcinha…Terminei o casamento!…

Ao que o outro respondeu:

– Pois você tem sorte, meu caro, porque a minha chegou com uma fita roxa pregada na bunda, e nela estava escrito: “Jamais te esqueceremos: Vagner, Moises, Elias e toda a turma da faculdade”. Tô dando porrada até agora…

E foi dessa forma que aconteceu a confusão que alvoroçou por algum tempo a cidade de Periquitinho Verde. O resto… bem, o resto é o resto, não passa de falatório desse povo que não tem mais o que inventar.

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