ADÉLIO E A SOGRA

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Adélio namorava a Adélia. E a mãe da Adélia se chama Amélia. Foi incompatibilidade à primeira vista entre o namorado e a sogra viúva. Sabe-se lá porque, talvez pela enorme tatuagem tribalista no músculo bíceps esquerdo do mancebo. O fato é que a senhora não dava trégua aos dois quando na sala de estar e não permitia que a filha chegasse em casa depois das dez da noite. E isso irritava o rapaz. Adélia contemporizava:

– Calma, Adélio, a mamãe ainda não se acostumou com a perda do papai, um dia vai passar e ela vai te aceitar.

O Adélio não perdia a oportunidade de retrucar:

– Sua mãe está é precisando de homem.

De sua parte, com os meses passando céleres, Adélio foi tomando uma preguiça danada da sogra que não demonstrava possibilidade alguma de algum dia aceitá-lo como namorado de sua filha. Da parte de Adélia, ela foi tomando uma preguiça danada do futuroso marido que vivia descendo a lenha na mãe. Como resultado, as picuinhas se tornaram diárias, foram num crescendo metódico até que não deu outra: rompimento amoroso. Ainda tentaram três vezes, mas não teve jeito: fim definitivo.

Adélio foi para a direita e Adélia para a esquerda, ou vice-versa, tanto faz. O negócio é que a vida continuou para ambos. Dois anos e pouco após, o amor renasceu ao Adélio quando conheceu Rogéria, garota prendada e educada que perdera a mãe há uns 3 anos e era muito paparicada pelo pai que recentemente havia se casado novamente. E o melhor, nada de namoro em casa, toda noite passeavam apaixonadamente pela Avenida Getúlio Vargas e Rua Major Gote e depois iam para a praça de alimentação do Pátio Central, e mais legal ainda para ele, ela não tinha hora para chegar em casa. Certo dia, Rogéria, em tom solene, disse ao Adélio:

– Combinei com o papai e com a minha madrasta que amanhã à noite vou levar você para que te conheçam.

E assim se deu. Quando os olhos do Adélio e da madrasta se encontraram, ela, com cara de poucos amigos, disse em alto e bom som:

– Você de novo!

Era a mãe da Adélia. Pelo menos, dessa vez, a sogra teve que engolir o Adélio e no seu devido tempo o casamento foi marcado. Mas olhar de sogra é fogo. Um dia antes do enlace matrimonial, Rogéria teve que engessar o dedo anelar esquerdo por causa de uma fratura.

* Texto: Eitel Teixeira Dannemann.

* Foto: Montagem de Eitel Teixeira Dannemann sobre foto publicada em 28/02/2013 com o título “Prefeitura em 1916”.

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