DEIXAREI SAUDADE − 99

Postado por e arquivado em 2019, FOTOS.

Barro e poeira, muita poeira e muito barro. São essas as duas lembranças que mais estão gravadas em minhas humildes estruturas. Acredito que todas as minhas semelhantes no meu entorno, tão ou mais humildes que eu, têm essas mesmas lembranças, pois era assim em todas as ruas por aqui, lugar de gente simples, pobre mesmo. No tempo de estiagem, portas e janelas tinham que ficar fechadas por causa da poeira. Minhas telhas, escurecidas pelos fungos do tempo, ficavam amarelas. No tempo das águas, o barro era terrível, alguns carros chegaram a atolar à minha frente. Num certo tempo, eis que resolveram nos livrar da poeira e do barro: calçaram a minha rua com esses bloquetes¹. Foi-se a poeira, foi-se o barro, e veio a enxurrada, verdadeira cachoeira, deixando a rua toda desnivelada, que a cada enxurrada, mais se acentua. Por falar em acentuar, desde que ergueram esses dois prédios aí atrás de mim, acentuou-me a desesperança, uma desesperança mórbida, baseado no que percebo. Prédios estão surgindo aos montes nos nossos espaços. Como não percebo melhoria em mim e em nenhuma de minhas semelhantes e sim prédios surgindo em nossos lugares, eis aí a minha desesperança, aquela certeza de que minha vivência de humildade e utilidade aos meus donos foram inúteis para a garantia da minha sobrevivência. Assim como as outras, a contagem regressiva do meu fim já foi acionada. Vou em paz, sabedora que sou parte da História de Patos de Minas. E, o essencial, deixarei saudade!

* 1: O imóvel localiza-se à Rua Deocleciano Mundim entre suas colegas Dona Nhá e Salvador, no Bairro São Francisco.

* Texto e foto (03/11/2019): Eitel Teixeira Dannemann.

Compartilhe