LENÇÓIS, OS

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Nos áureos tempos das tradicionais casas com fachada no passeio, Gracinha e seu marido Arlindo residiam numa delas à Rua Teófilo Otoni entre a Praça Dona Genoveva e a Rua Alfredo Borges. Diariamente, no café da manhã, lá da copa a Gracinha, olhando pela vidraça da janela da sala, reparava o duro trabalho de sua vizinha lavadeira. Foi então que ela percebeu algo estranho nas roupas dependuradas no varal e comentou com o Arlindo:

– Deve estar acontecendo alguma coisa com a Dona Carlota, ela não está lavando mais como antigamente, de uns dias para cá, daqui dá para perceber claramente manchas de sujeiras nos lençóis brancos. Vou lá na janela pra ver melhor.

O Arlindo ordenou:

– Deixa disso, mulher, cuida da sua vida.

Uma semana após, a Gracinha voltou a comentar:

– Arlindo, ou a Dona Carlota está com fraqueza nas mãos ou está usando pouco sabão, porque, olha lá, os lençóis que ela dependura no varal estão manchados. Parece que os clientes não estão ligando pra isso, coisa esquisita, porque o trabalho dela não diminui. Vou lá abrir a janela pra ver melhor.

O Arlindo ordenou:

– Deixa disso, mulher, cuida da sua vida.

E veio de novo:

– Olha lá Arlindo, veja como aqueles lençóis estão sujos, como pode um troço desses, e mesmo assim parece que ela arrumou mais clientes, não estou entendendo bulhufas, ela entrega as roupas sujas e mesmo assim os clientes continuam mandando roupa pra ela, muito esquisito. Vou lá abrir a janela pra ver melhor.

O Arlindo ordenou:

– Deixa disso, mulher, cuida da sua vida.

Chegou o dia em que a coisa mudou, totalmente. Nessa mudança, a Gracinha se espantou demais da conta:

– Arlindo, Arlindo, olha lá, olha aqueles lençóis, veja como estão brancos, limpinhos, mas é muito esquisito, o que será que aconteceu, será que a Dona Carlota reaprendeu a lavar roupa? Vou lá abrir a janela pra ver melhor.

O Arlindo, com a calma de Jó, virou para a esposa e encerrou o caso:

– Não aconteceu nada demais, Gracinha, não precisa abrir a janela pra ver melhor, eu apenas lavei a vidraça!

* Texto: Eitel Teixeira Dannemann (Traquitanas Patenses).

* Foto: Doggarnas.blogg.se, meramente ilustrativa.

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