ENSINO EM PATOS DE MINAS (COMO ERA DIFÍCIL…), O

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AUTOR: J. BORGES (1969)

Patos de Minas sempre lutou para educar seus filhos.

Os roceiros do município e mesmo a maioria dos fazendeiros eram analfabetos.

Mal assinavam o próprio nome. E isto parece um mal generalizado e hereditário em todo o Brasil.

Era comum nos casamentos a noiva pedir a uma pessoa amiga para assinar o seu nome.

Ora, isso devia envergonhar a família e vexava a pobre moça, que se enrubescia e procurava esconder o rosto ou morder nos dedos…

Os culpados eram os pais que em parte tinham razão, pela dificuldade e mesmo impossibilidade de contratarem um professor idôneo com a coragem bastante de vir embrenhar-se nestas paragens d’antanho. Resultado: a família ia crescendo… Crescendo e as moças já em número de quatro ou seis em idade núbil, e casamento… nenhum! Isto nas roças pouco distantes da cidade.

Por aqui, mesmo entre os maiorais, pouca ou nenhuma diferença havia. Já estava estabelecido e decretado pelos vovôs da redondeza: para mulher – costura e cozinha. Nada de estudos. Mulher falante e sabida é um perigo para o marido, analfabeto, como nós, diziam.

Seria prejudicial ao sossego das famílias, diziam uns.

E os bilhetinhos aos namorados, comentavam os mais teimosos em sua intransigência…

E além disso a maior dificuldade era descobrir uma professora, naquela época.

Não se consentia promiscuidade de sexos em escola pública. Também não se admitia que um homem, mesmo maduro e casado lecionasse a uma menina.

Nessa ocasião dois homens se dispuseram a internar suas filhas em colégios bons.

Em primeiro lugar, o que me consta foi o Major Jerônimo Dias Maciel, levando D. Amália para Campanha. D. Amália casou-se com Tonho Dias Maciel, ex-Coletor Estadual e é pai de D. Amália (2ª), esposa do Dr. Ivan Clementino.

Coisa interessante: D. Amália (2ª) é a única mulher Maciel em Patos, que se casou com Borges. Foi casada com Olavo Gualberto de Amorim (cuja mãe é Borges), com quem teve um filho, Paulo Roberto.

Em segundo lugar foi o capitão João Antônio Borges, meu pai, que levou duas filhas ao Colégio de D. Manoelita Chagas (mais conhecida por Titia Lilita da família Chagas, em Oliveira).

Realmente, durante muitos anos, Patos era isolado do mundo, tendo como único meio de transporte o cavalo, que nos levava às últimas estações da Bitolinha: Itapecerica, além de Formiga 6 léguas, e Abadia do Pitangui adiante de Dores do Indaiá, 7 léguas.

A viagem era penosa e bastante arriscada, porquanto, só no Rio S. Francisco, entre Dores do Indaiá e Abadia de Pitangui existia uma barca confortável.

Nos outros rios e ribeirões, a travessia era em canoa e os animais a nado. Os jornais e correspondências eram transportadas em cargueiros, uma a duas vezes ao mês no tempo das chuvas. A viagem, entretanto, para os estudantes era divertida e pitoresca: paisagens variadas e bonitas; o almoço à beira de um córrego e o café acompanhado de ótimos biscoitos feitos e arrumados por nossas idolatradas mãezinhas. Tudo ainda nos trás saudades!

Agora, a título de curiosidade, porque mais a mim interessa esta história de que tomei parte, senti e vivi de muito perto e com bastante entusiasmo: desenrolou-se entre 1893 e 1895, não podendo precisar exatamente a data. Era eu um pirralho de pouco mais de seis anos e precisava ir para o colégio porque meu pai, paralítico dos braços, devia vender o negócio por não ter arranjado um empregado de confiança: Escola Pública para meninos.

Naquela época eram duas: a do Professor Modesto Ribeiro e a do Professor Felipe Corrêa.

Este último já idoso e surdo, não podia impor respeito nas aulas. O primeiro, Professor Modesto, tinha sempre excesso de alunos, conseguindo para o meu pai em lugar, um ou dois anos depois.

Escola para meninas não existia, naquele ano e, além disto, era condenado a promiscuidade de sexos.

Para não ficar de todo à toa, meu pai me punha a colecionar cartas comerciais de portugueses, quase sempre, as que ele achasse mais bonitas e de amigos antigos.

Uma sempre preferida, e que ia para a coleção, era do português Antônio de Matos, pai do Desembargador Mario de Matos, que foi também membro da Academia Mineira de Letras.

Depois de muito trabalho, em suas andanças, o Cel. Farnese Maciel conseguiu trazer até Patos um casal de Ingleses, já velhos, que tiveram no fim da vida, por poucos meses é certo, mas vieram dar com os costados em Patos de Minas.

O velho Schimith se contentava com uma modesta instalação de tecelagem em sua própria casa de residência, produzindo alguns pares de meias, apenas. A professora (deve ter sido só aqui em Patos) foi nomeada professora pública, manteve sua escola quase na confluência da Rua Alfredo Borges com Teófilo Otoni.

Casa alta de esteio de aroeira, com 3 a 4 degraus na frente, demolida há poucos anos.

A escola funcionava só com os dois primeiros anos primários e primava pela cantoria.

Tudo era cantado: ABC e tabuada que retumbava cá no largo da velha matriz.

Por uma condescendência toda especial e honrosa, fui admitido no corpo discente, onde aprendi trabalhos de lã e crochê.

Foram minhas colegas e estão ainda vivas, D. Julieta Maciel Barros, viúva do grande Prefeito Dr. Marcolino de Barros, residente em Belo Horizonte.

D. Elisa Borges Nogueira, residente em Patos de Minas. Veja a mocidade patense como era penosa a nossa educação naqueles tempos…

* Fonte: Texto publicado na edição de 24 de maio de 1969 do Jornal dos Municípios, do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão de História (LEPEH) do Unipam.

* Foto: Sanavria.blogspot.

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