ANTONIO NOGUEIRA DE ALMEIDA COELHO − FALECIMENTO

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Devido a causas que só a justiça publica compete elucidar, com razão ou sem ella, foi morto por um tiro de garrucha, na manhã de 29 de abril [1907], o talentoso advogado dr. Antonio Nogueira de Almeida Coelho. A população consternada compareceu toda em casa do Sr. Alfredo Borges, local onde se dera o desastre, lamentando todos a uma o fim desastroso do inditoso moço que fazia parte da elite Patense e que teve a suprema infellicidade de ser morto por seu concunhado. Incontinenti compareceu ao logar do conflicto, narrado de diversos modos, com muitas versões, o Snr. Daniel Belluco, Delegado de Policia em exercicio, juntamente com o Dr. Laudelino Gomes e Cap.m Aurelio Mendonça que fizeram auto de exame cadaverico tomando o mesmo Sr. as providencias que o caso requeria; os seus amigos commentavam em todas as rodas mais esta scena de sangue que veio perturbar as lides diarias dos pacificos habitantes desta terra.

A’s seis horas da tarde teve logar o sahimento, comparecendo todas as pessoas gradas, que disputavam a honra de carregar o seu caixão, observando-se nessa occasião quão inumeros eram os seus amigos; ao ser sepultado, depois das cerimonias da egreja, tomou a palavra o signatario destas linhas, e deante do cadaver daquelle que foi seu amigo de infancia, cuja amizade cimentou-se nos bancos escolares e nos axares da vida publica fallou assim:

“Muitas vezes dormita esquecido sobre a fria sombra de um tumulo singelo, quem no coração teve um mundo de crenças e na fronte um foco de luz”.

Um momento, coveiro, não lhe deites ainda a pá de terra sobre a face, não entregues aos immundos vermes o cadaver daquelle que se chamou Antonio Nogueira de Almeida Coelho, deixa que o seu rosto sympathico, seja pela ultima vez banhado pelo sopro da viração do Amôr. Si morrer é a desaggregação molecular, e a renovação incessante de seres no meio cosmico, Almeida morreu, se morrer, porem, é deixar este mundo, onde existem desesperados que blasphemam, miseraveis que mendigam, illusos que sonham e felizes que gosam; si morrer é deixar tudo isso para viver uma existencia de anjo no seio imenso de Deus então elle não morreu, foi arrebatado por mão de fada bemfaseja lá para o mundo das estrellas; pela calada noite nesta terra de fresco revolvida os anjos da morte cantam nenias saudosas ao rugir languoroso dos cyprestes e das casuarinas, que traduzem lamentos, choros, saudades do amigo que tombou na campa, e cuja alma se evolou para as regiões ethereas do infinito.

Caiam sobre a sua cabeça myriades de astros da celeste aboboda, povoem o seu somno eterno as lindas visões do céo. De hoje ha um anno, o que será do cadaver do amigo e concidadão? Lugubre incerteza, pavorosa incógnita, deante da qual só não ficam fulminados os que tem grande confiança na misericordia Divina.

Quem foi o Dr. Nogueira? Foi o amigo dos seus amigos e como disse alguem − Morto parece maior do que vivo, affigura-se-me vel-o no convivio intimo a diffundir a luz de seu espirito esclarecido; elle tinha a rara virtude de se enthusiasmar por tudo que era bello, ou lhe parecia assim. A sua bondade chamava sobre si uma sympathia irresistivel numa effusão e captivante; fundou “O Trabalho”¹, concorreu para a fundação do Atheneu da Cidade de Patos²; para qualquer cousa relativamente aos progressos desta terra encontramol-o sempre ao nosso lado como batalhador imperecivel.

Si é verdade que a alma ao desprender-se do corpo paire um momento no ether antes de abysmar-se nas regiões do nada acceitae amigo a ultima prova de estima que te podemos dar. Si as saudades são mais do que ficam do que dos que partem, choremos todos em derredor do epitaphio de um morto querido que mão piedosa por ahi vae gravar, enquanto os vermes vão roendo esse cadaver amarrado pelos grilhões da morte. Disse.

A’ família do Dr. Nogueira, em nome da redacção do “Trabalho” envio condolencias e sentidos pezames pelo passamento do bom amigo e concidadão.

Dr. E. Rodrigues.

* 1: Leia “1.º Jornal − O Trabalho”.

* 2: Leia “Atheneu da Cidade de Patos”.

* Fonte: Texto publicado com o título “Dr. Antonio Nogueira de Almeida Coelho” na edição de 05 de maio de 1907 do jornal O Trabalho, em homenagem ao falecido, do arquivo da Hemeroteca Digital do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, via Altamir Fernandes.

* Foto: Do livro Domínios de Pecuários e Enxadachins, de Geraldo Fonseca.

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