IDEALIZADOR DA FESTA DO MILHO, O

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Afinal, quem “plantou a semente” da Festa do Milho? Após a primeira edição, realizada em 1959, o tempo contribuiu para gerar muitos nomes e criar controvérsias. Em 24 de maio de 1972 o jornalista José Maria Vaz Borges publicou uma carta do padre Almir Neves de Medeiros em seu Jornal dos Municípios que esclarece alguns fatos. Vamos a ela!

“Patos de Minas, 20 de maio de 1972

Prezado José Maria, meu querido Marreco!

Com que insistência você me telefona; pedindo-me um artigo para o número comemorativo da Festa Nacional do Milho! Isso é uma honra que muito me desvanece. Verdade!

Gostaria de lhe falar sobre o que foi a Convenção do Lions, em Goiânia. Dizer-lhe do brilhantismo com que Patos de Minas se houve em terras do Anhanguera. Os leões, domadoras e a turma do Lions Clube brilharam. Patos soube dar o recado direitinho. Mas, sobre isso, a turma que por lá esteve lhe poderá dizer melhor do que eu.

Gostaria de lhe falar sobre a nossa Festa do Milho.

Festa, querido amigo, cuja idéia nasceu deste que lhe escreve. Você sabe disso. Estão gastando muitas resmas de papel para negar o óbvio, numa tentativa de provar o que não existe e o que existe de verdadeiro nisso tudo. Tentam de todas as formas arrebatar-me essa paternidade. Não sei bem por que. Eu entendo a jogada e sei onde estão as raízes disso tudo. Mas não compreendo e nem justifico. Não posso compreender que alguém possa brincar com a própria reputação profissional, semeando mentiras ou inverdades históricas. Prefiro acreditar em equívocos ou mal entendidos. Apenas isso, para começo de conversa.

Por várias vezes você me pediu para que eu escrevesse a verdadeira História da Festa do Milho. Sabe de uma coisa, Zé? Eu não dou para esse negócio de escrever História, seja lá do que for. Enquanto vivos, nós ainda somos a História e a fazemos todos os dias. O ruim está em querer distorcer a veracidade dos fatos que acontecem. Em colocá-los sob um prisma de parcialidade. Permitir que as nossas simpatias ou antipatias escrevam a História que a veracidade dos fatos desmentem. É um perigo, Zé, que os nossos desafetos, frutos de nosso orgulho ou vaidades pessoais, influenciem de tal maneira em nosso sub-consciente, que cheguemos ao ponto de ferir a justiça, alicerce primeiro de toda e qualquer História. Aí caímos no ridículo.

Se a primeira Festa do Milho tivesse fracassado, ninguém se importaria em forjar idealizadores desta festa. Meu nome viria em manchetes, como uma medalha de Honra ao Fracasso? Mas assim não foi. Tenho que pagar por isso.

O que eu sei, meu querido amigo, é que há uma insistência muito grande em se querer negar o óbvio. E eu já me cansei de tantas mentiras, bem ou mal intencionadas. Mas cansei mesmo! Começo por entender como certas inverdades históricas tomaram vulto e hoje fundem a cuca de muitos historiadores para refazer a face verdadeira da História! Hoje sei na própria carne como elas começaram. E com que leviandade começam, meu amigo!

‘O que eu sei, Zé Maria, é que ainda estou vivo! Eu sei que fui eu o idealizador desta Festa do Milho, que se realiza aqui em Patos de Minas.

Não pedi conselhos a ninguém e não troquei idéias com quem quer que fosse, com referência a idéia desta Festa. A idéia apenas, que eu trazia, eu a entreguei a D. Ordalina Vieira.

Você se lembra, Zé Maria? E foi o acaso que me fez encontrar com ela. Mais nada. Tanto é verdade que, esta Festa o nome de MILHO, nós o devemos a ela, Dona Ordalina. A mais ninguém.

Eu lhe levara apenas uma idéia de uma festa. Queríamos (os estudantes e eu) angariar dinheiro para a compra de um imóvel para a instalação do Colégio Municipal, recém fundado. Você se lembra Zé? Queria organizar a eleição de uma Rainha de qualquer coisa, com votos comprados ou pagos, como seja! Que fosse Rainha do Feijão ou do Trigo (sugestões minhas). Dona Ordalina é quem me sugeriu Rainha do Milho, pela primeira vez. Ela mesma se dispôs a procurar candidatas, para depois repensarmos no assunto! Se ela, após aquele encontro na Major Gote, saiu a procurar seja lá quem for, eu não sei. Se houve encontros na torre da Catedral ou no campo do Mamoré, eu não tomei conhecimento. O que eu sei é que a idéia era minha e de mais ninguém. Que essa idéia poderia ter morrido ali mesmo na Major Gote, poderia. Se aquela idéia não tivesse sido recebida por quem foi, se não tivesse merecido o carinho e as atenções que teve por parte de Dona Ordalina, eu acredito que seria uma idéia a mais a morrer comigo… Mas, felizmente ou infelizmente, ela não morreu, Zé Maria. A Festa está aí… E eu, feliz ou infelizmente, também ainda não morri para engolir tanta mentira que se está espalhando, impunemente’.

Você se lembra, José Maria o quanto a Primeira Festa foi tumultuada por questões políticas. Eram acirrados os ânimos naquela época. O radicalismo era a lei. Você se lembra? O Colégio Municipal tinha implicações políticas, apesar de ter sido fruto de toda uma campanha estritamente estudantil. Pouca gente se lembra disso. A campanha para implantação do Colégio teria que sofrer do clima ambiente. Você sabe que o objetivo único da primeira Festa era, de início, única – exclusivamente o Colégio Municipal. Depois… por causa da política o objetivo passou a ser o Seminário Pio XII. Você se lembra, Zé Maria?

E esse segundo objetivo também foi sugestão de Dona Ordalina Vieira. Somente aí novas comissões foram criadas e organizadas. Somente aí é que muita gente entrou na jogada da Primeira Festa do Milho. Somente aí é que a Presidência foi entregue ao saudoso Dom José. Você se lembra Zé Maria? Somente aí é que se desanuviou o ambiente político. Isso tudo se deu após a minha volta do Rio, onde eu fora tentar a vinda de Dom Hélder Câmara para abrir a Primeira Semana Ruralista. Você se lembra, Zé Maria?

Com que facilidade, meu caro amigo, já agora se procura escrever as origens desta Festa, tomando o bonde andando e no meio do caminho. Busca-se o testemunho de pessoas sérias, mas que não assistiram o nascimento da ‘criança’… Por causa disso tudo (você se lembra Zé Maria) até mesmo rótulos bem pouco amáveis foram oferecidos à minha progenitora. Você se lembra Zé, que as duas fases distintas, fizeram com que os batalhadores da primeira se desinteressassem diante do objetivo da segunda. Para a segunda fase, não faltaram elementos do mais alto gabarito, que não deixaram que a idéia morresse. Citar nomes? Para que? Foram muito mais do que os comumente citados. O que importa é que a Festa do Milho está aí. Hoje, Nacional!

Pode ser, Zé Maria, que eu esteja sendo injusto e que ninguém tenha escrito ou falado nada em contrário do que aqui lhe afirmo. Tenho recebido, apenas informações deste mais aquele, preocupados com o meu silêncio. Este não significa anuência e muito menos covardia. Apenas aquela profunda convicção de que a mentira tem pernas curtas. E acredito que as mentiras que se espalham nada tenham a ver com as pessoas que as veiculam. Talvez seja um problema de má informação, apesar de bem intencionadas. Prefiro acreditar assim.

Meu querido Zé Maria: estão aí alguns detalhes das origens da Primeira Festa do Milho. Quando você quiser estarei disposto a lhe dar todos os outros pormenores, inclusive alguns documentos que atestam o que lhe afirmo e que você conhece. Que se acredite ou não no que afirmo, não é problema meu. Bem diz Kahlil Gibran: ‘Ninguém acredita no sincero, exceto o honesto!’

Como vê, o problema não é nosso, não é mesmo?

Um abração para você, deste seu sempre amigo e irmão

Padre Almir Neves de Medeiros”

* Fonte: Arquivo do Laboratório de Ensino, Pesquisa e Extensão de História (LEPEH) do Unipam.

* Foto: Padre Almir Neves de Medeiros, do arquivo de Donaldo Amaro Teixeira.

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