DESPEDIDA DO PADRE, A

Postado por e arquivado em ARTES, FERNANDO KITZINGER DANNEMANN, LITERATURA.

Apesar do progresso ter dado um empurrãozinho até razoável em Periquitinho Verde, a cidade, em certos aspectos, continua sendo o que sempre foi. Entre outras coisas, ela teima em se manter apegada às tradições que os seus antepassados carregaram consigo e deixaram como herança aos que vieram depois deles para enfrentar esse corre-corre que é a vida de agora, porque essas coisas de memória não são como certas peças de roupa que a gente veste, tira, lava, e pronto… está em condições de uso, novamente, e é justamente por isso que precisam continuar inteiras e intocáveis, mesmo marcadas pelo tempo, convivendo harmoniosamente com os usos e costumes trazidos pela modernidade.

Entretanto, em certas oportunidades o negócio complica, não por obra e arte de alguém que tenha tido a intenção pré-determinada de causar embaraços a quem quer que seja, mas porque como a verdade é a verdade, tem hora em que ela bota a cabeça para fora do balaio em que a esconderam, só para que os outros, ao vê-la, não se esqueçam de que existe e não tem a menor intenção de morrer.

Foi mais ou menos isso o que aconteceu não faz muito tempo, quando o padre Tobias foi informado de sua transferência para a paróquia de Conde Marmelo, também na região do Alto Águaprarriba. Ele era muito querido pelos seus paroquianos, pois ao longo dos quase quarenta anos em que exerceu seu ministério em Periquitinho Verde, não só casou muita gente, batizou muita gente, orientou muita gente, mas também colaborou a seu modo para que a cidade crescesse e se multiplicasse, a tal ponto que tinha, por assim dizer, entrada livre e franca em qualquer residência ou casa comercial dos bairros nobres e da periferia urbana local.

Até que um dia a notícia da transferência estourou como uma bomba entre os periquitinhoverdenses: o padre Tobias fora transferido para outra paróquia. E de nada adiantaram os pedidos de quem acha que pode e de quem realmente não pode, porque como os problemas do clero são resolvidos de acordo com as normas e regulamentos do clero, o que é compreensível, não adianta ninguém querer meter o bedelho nesses assuntos, pois não vai adiantar. E fim de papo! Então, diante da inevitabilidade da mudança que ninguém queria, os paroquianos resolveram que o mínimo a fazer seria oferecer ao seu guia espiritual uma festa digna do respeito e da admiração que ele inspirava aos fiéis de toda a região.

Assim decidido, as mulheres entraram em ação, os homens fizeram a mesma coisa, e tanto trabalharam que no dia marcado a praça Tertúlio Pargas estava ocupada por uma multidão como ainda não tinha sido visto igual em outras solenidades ou comemorações de qualquer tipo realizadas naquele mesmo lugar.

A festa não tinha um programa a ser cumprido, do tipo às tantas horas é isso, e às tantas, aquilo. Do que todo mundo tinha conhecimento era que o prefeito Noraldino da Costa Penteado, também conhecido como Nhonhô Trambique, faria um discurso em nome da comunidade, agradecendo a abnegada dedicação com que o religioso exercera sua missão pastoral entre os periquitinhoverdenses, e logo depois o padre Tobias dirigiria a palavra aos que ali estavam, ovelhas do rebanho espiritual que até então ele apascentara, para lhe apresentar sua saudação de despedida e votos de bem-estar e felicidade na nova paróquia.

E foi mais ou menos o que aconteceu, porque a festa na praça transcorreu tranqüila e serena, as barraquinhas cheias de gente, todo mundo esperando a chegada do prefeito, mas este se atrasou e deixou de comparecer no horário marcado. Então o tempo foi passando com a pressa que lhe é peculiar, ficando cada vez mais tarde, o pessoal que se mantinha firme ao redor do palanque começou a dar sinais de impaciência, logo alguém reclamou, um outro também, os organizadores perceberam que chegara o momento em que não dava mais para segurar, e por isso o padre Tobias subiu ao palanque e iniciou a sua fala. Ele não se estendeu no discurso que fez, mas do que disse, das lembranças que evocou, as palavras mais importantes podem ser resumidas da seguinte forma:

– Quando cheguei a esta cidade, a primeira pessoa que se confessou comigo revelou que havia deixado a família na mão, que havia transado com a filha do patrão, bebido feito um condenado, fumado como um doido, passado a perna em muita gente, iludido um batalhão de pessoas, visto milhões de filmes pornográficos e maquinado da forma mais desonesta para subir na vida e se tornar poderoso. Logo pensei que aqui só havia homens como ele. Mas quando conheci o povo trabalhador e honesto que mora nessa cidade, mudei a minha opinião.

Ao encerrar a sua fala, o público que se acotovelava diante dele o aplaudiu de forma estrondosa, numa manifestação tão espontânea que durou vários minutos mantendo a mesma intensidade. Mas foi justamente no momento em que as palmas começavam a ralear que o prefeito Noraldino chegou esbaforido, subiu ao palanque, pediu perdão pelo atraso involuntário, e completou:

– Sei que é incorreto e até mesmo deselegante falar depois do homenageado. Se hoje eu faço isso é porque preciso lhes contar uma coisa, e a oportunidade que tenho é essa… outra talvez não me apareça. Portanto, desculpem se me atrevo a atropelar o protocolo, mas todos precisam saber que quando esse padre chegou aqui, eu fui o primeiro e me confessar com ele.

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